IGNACIO RAMONET: O MUNDO QUE EXISTIA MESES ANTES, SUMIU

O jornalista, escritor e especialista em Comunicação, Ignacio Ramonet, limitou seus movimentos e está cumprindo, em Havana, com excelente saúde, as medidas de isolamento social. Não obstante, desse repouso aparente nasceu um ensaio que já vai ganhando qualificativos, como ferramenta que ajuda a entender as circunstâncias e consequências da Covid-19 para a humanidade: «Perante o desconhecido… a pandemia e o sistema-mundo».

IGNACIO RAMONET: O MUNDO QUE EXISTIA MESES ANTES, SUMIU

A fim de aproximar-nos mais das implicações desta doença global na geopolítica mundial e na comunicação social, Ramonet nos concedeu algumas reflexões.

«Eu definiria a pandemia como um fato social total. Esse é um conceito das ciências sociais que indica que, às vezes, um fato social tem a faculdade de perturbar o conjunto dos atores, o conjunto das instituições e o conjunto dos valores de uma sociedade. Tem poucos fatos sociais totais, mas a pandemia é um deles, não é uma crise sanitária unicamente. A questão que se coloca, hoje em dia, é precisamente se o neoliberalismo tem uma parte de responsabilidade na tragédia sanitária. Em que medida? Na medida em que o neoliberalismo é a favor da redução do tamanho do Estado e também na medida em que o neoliberalismo tenta, precisamente, ceder o máximo do poder ao mercado, em detrimento do Estado».


«Em muitos países todo aquilo que é a Saúde Pública viu reduzir se orçamento. No caso da Espanha e da Itália tem, ainda, as consequências da crise de 2008. No seio da União Europeia, os países do Norte, a Alemanha, em primeiro lugar, exigiram, para ajudar os países que tinham sofrido o descalabro do seu modelo econômico-fianceiro imposto pelo neoliberalismo (Grécia, Espanha, Itália, Portugal, Irlanda), que tivessem políticas de austeridade do Estado, que funcionassem com menos despesas, e o sistema de Saúde foi reduzido, suprimiram-se hospitais, particularmente os leitos das salas de tratamento intensivo, os aparelhos de respiração artificial, e assim que chegou a pandemia, não é por acaso que a Espanha e a Itália tenham as dificuldades que tiveram, ou o Reino Unido também».


«O que vai acontecer quando a pandemia passar e as sociedades façam um exame e peçam responsabilidades aos governantes que globalmente fizeram tudo mal nos grandes países? Por que não previram esta pandemia? Eu demonstro no ensaio que, em todo o caso, nos Estados Unidos é a pandemia mais anunciada do mundo. Dou exemplos de relatórios da CIA, do Pentágono, de cientistas, de outros líderes norte-americanos, de empresários como Bill Gates, que todos anunciavam que um coronavírus, não um vírus, um coronavírus apareceria antes de 2025, e que provocaria isto que está acontecendo hoje, e encontraria os Estados sem máscaras de proteção, sem leitos suficientes, sem protetores faciais, sem vestes de proteção, sem leitos de todo o tipo. A péssima gestão destes governantes provocou milhares e milhares de mortos, e esses mortos têm famílias, não são mortos que tenham sido culpados de qualquer coisa, são mortos inocentes».


«Um outro aspecto é o geopolítico. Desta situação, como é que vamos sair? Como será o mundo depois disto? O mundo não pode ser igual depois desta pandemia, porque não sabemos como vai terminar, quantos mortos haverá finalmente. Neste mundo diferente podemos vê-lo, do ponto de vista geopolítico, que a liderança dos Estados Unidos fracassou. Esse país não esteve à altura, particularmente, porque esteve mito mal gerido. Se há um líder, entre os líderes dos maiores países do mundo, que teve um comportamento, digamos, totalmente impresentável, totalmente estravagante, foi o presidente Trump, que se comportou, em muitos casos, como um palhaço em meio de uma situação tão trágica, para um país com as responsabilidades que têm os Estados Unidos. Esta gestão vai custar a reeleição a Trump? É outra das perguntas, cuja resposta ainda não temos, mas sem dúvida ficou enfraquecido».


«Caminhamos rumo a um desastre econômico, em nível mundial, que será idêntico ou superior ao da grande crise, a grande depressão de 1929, que é a crise mais importante que conheceu o capitalismo a partir do seu surgimento, no século 18. Então, o que vai acontecer no mundo? O que vai acontecer nesses países do Sul, que já tem milhares de problemas? Que tipo de crise social e política? O que vai acontecer naqueles países que têm confrontos militares? Não sabemos, em nível geopolítico, o que vai acontecer no mundo, estamos observando o aspecto sanitário do problema, mas este aspecto sanitário tem uma onda de situações que provoca. Evidentemente, deixa ver um segundo ato, que vai ser econômico, e um terceiro ato, que vai ser político e social, e obviamente isso vai ocorrer».


«Claro que o vírus não é uma revolução, mas está permitindo ver, por exemplo, como em muitas sociedades os pobres estão morrendo, não porque tenham o coronavírus, mas sim porque são pobres, porque a Saúde não é para eles. Um tratamento nos Estados Unidos custa, em média, US$ 35 mil; nem todo o mundo tem esse dinheiro; nem todo o mundo tem o seguro para poder se curar; os ilegais, os imigrantes, que são milhões e milhões, não tem acesso nem sequer aos cuidados médicos».


«Em termos de comunicação, evidentemente, existe um debate para impor um relato, porque essa é a primeira batalha, a comunicacional, com 4,5 bilhões de pessoas fechadas em suas casas. A primeira lição é que o que se impõe é a comunicação digital, todo mundo desenvolveu comunicação digital mediante as redes sociais, mediante os sistemas de mensagens, isso é o que dominou. As pessoas não tiveram acesso ao papel, as livrarias estão fechadas, as bancas de jornais estão fechadas. Por conseguinte, houve um triunfo do lado digital, eu diria uma apoteose. Outra lição, e é uma coisa que nós já tínhamos anunciado, é que o dado é a matéria prima dominante de nosso tempo. Esses dados são hoje o que tem valor e é o que faz com que haja novos impérios das empresas de dados, o Big Data».


«Também temos o problema da privatização. Nesse aspecto, refere-se que os países que melhor combateram a Covid-19 são os que lançaram mão das novas tecnologias, particularmente as câmeras de vigilância e as aplicações nos celulares».


«Em termos de comunicação tentou-se impor um relato, e isso deu lugar a uma grande patranha de fake news, notícias falsas contra verdades, e nunca se produziram tantas notícias falsas como nesta época. Também convém lembrar, para terminar, que a crise sanitária é um aspecto da crise climática, a verdadeira crise que está vivendo o planeta é a crise climática, o que amanhã realmente pode destruir o planeta, tal como o anunciou Fidel Castro».

Por: Omelio Borroto Leiseca | internet@granma.cu