A "solução final"?

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A "solução final"?

Igor Fuser (*) 

 

    Agora se inicia o espetáculo degradante do terrorismo em sua maior escala, escala industrial: o terrorismo de Estado, dotado das mais modernas e eficazes máquinas de matar, bilhões de dólares à disposição, a farta mão-de-obra de uma sociedade militarizada até a medula e um dispositivo midiático de propaganda que abrange quase o mundo inteiro. 

 

   O Estado de Israel põe em marcha sua maior campanha de assassinato em massa, com o aplauso e patrocínio da maior potência militar e econômica do mundo, os EUA, e de todos os seus aliados. Já são 830 civis palestinos mortos, segundo as autoridades de saúde de Gaza. Logo o número já ultrapassará as 900 vítimas do ataque do Hamas a Israel. E isso é, claramente, só o começo, como declarou Netanyahu.

 

    A Faixa de Gaza virou um campo de massacre. A ordem do governo de Israel é matar, matar, matar, num frenesi de vingança sem limites. Agora eles querem sangue, sangue de palestinos, homens, mulheres e crianças. A "guerra" não é contra o Hamas, é contra o povo palestino, pessoas comuns, como eu e você, consideradas "animais humanos" pelo ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant.

 

   A liderança sionista, sentindo-se "legitimada" pelo trauma da chacina de civis israelenses, deixa de lado o tênue verniz de humanidade, os limites básicos impostos pela civilização, e prega a violência irrestrita, sem que ninguém, nenhum ator relevante no sistema internacional, nenhum segmento da sociedade israelense onde um dia, num passado já muito distante, prosperou um movimento "pela paz", se interponha para refrear a fúria assassina de Netanyahu & cia.     

   

    A vingança pelo ataque do Hamas se volta contra todo e qualquer palestino que, por uma simples circunstância, se encontra confinado no maior campo de concentração do século 21, a Faixa de Gaza.

 

   Dezenas de edifícios residenciais já foram destruídos. Ninguém pode sair daquele polígono da morte, cercado pelas tropas de Israel. Centenas de milhares de pessoas já deixaram suas casas em Gaza, buscando abrigo em escolas e em instalações da ONU. Mas nem lá estarão em segurança, pois não há limite para os bombardeios. O acesso à comida, remédios, combustíveis e água está bloqueado por Israel. Ao tormento dos bombardeios se somará a fome, a sede e as epidemias. Logo já não será possível tratar os milhares de feridos.

   

    Tudo isso é ILEGAL, já que o Direito Internacional proíbe a "punição coletiva" e a violência contra civis. E o massacre sem freios é levado adiante com o sinal verde, o apoio integral dos EUA e dos principais países da Europa Ocidental. 

 

   Governos europeus, como os da Suécia e da Dinamarca (países tão respeitáveis, não é?, tão cheios de "soft power"), cancelam toda ajuda a qualquer entidade palestina, aí incluída a Autoridade Palestina, que nada teve a ver com a explosão de violência em Gaza.

 

    Onde está "o mundo regido pelo respeito às regras" de que os ocidentais tanto falam quando condenam a invasão da Ucrânia? Onde está o Tribunal Penal Internacional numa hora dessas? Se o Hamas é "terrorista", Israel é o quê? 

 

    As comparações são inevitáveis. Gaza se tornou, claramente, o equivalente contemporâneo ao Gueto de Varsóvia, tão bem retratado no filme "O Pianista", de Roman Polanski. E será que agora Netanyahu, conforme já insinuou, está a caminho de pôr em prática uma "solução final"?

 

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(*) Igor Fuser, doutor em Ciência Política pela USP, é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).