Novo relatório confirma que Juscelino Kubitschek foi assassinado
Novo relatório confirma que Juscelino Kubitschek foi assassinado
Novo relatório da CEMDP desarticula versão de acidente na Via Dutra

Um novo documento da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos, CEMDP, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na CEMDP, concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto pela ditadura civil-militar em 1976. Com análise prevista para abril, o conteúdo foi apresentado aos familiares de JK e do motorista Geraldo Ribeiro, como parte do “rito ético de reparação”, e deve ser analisado pelo colegiado na próxima reunião, informou o GGN.
A CEMDP foi recriada pelo governo do presidente Lula em julho de 2024 e é composta por sete membros indicados pela sociedade civil e pelo presidente, além de representantes das famílias das vítimas, do Ministério da Defesa e da Câmara dos Deputados. A presidente é a procuradora da República Eugênia Gonzaga.
A reviravolta ocorre a poucos meses do país marcar os 50 anos da morte de JK, em 22 de agosto de 1976. Na versão oficial sustentada ainda durante a ditadura, o Opala em que JK viajava — conduzido por seu motorista e amigo Geraldo Ribeiro, que também morreu — teria se desgovernado após um suposto toque com um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem, antes de atravessar o canteiro central da Via Dutra e colidir, já na pista contrária, com uma carreta.
Falta de elementos materiais
O texto que será votado pelos conselheiros não abre novas frentes de apuração, mas reúne e organiza investigações já realizadas, com ênfase no inquérito civil do Ministério Público Federal (MPF), conduzido entre 2013 e 2019 e divulgado em 2021, após as conclusões da Comissão Nacional da Verdade (CNV). No inquérito, o MPF afirmou ter havido “falhas severas” nas investigações estatais e apontou, entre as lacunas, a ausência de exame toxicológico (para substâncias além do álcool) no motorista, o que impediria avaliar hipóteses como intoxicação ou envenenamento.
Um dos eixos centrais desse reexame é a crítica aos laudos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) que deram base à tese do choque com o ônibus. O MPF afirma ter encontrado erros e contradições técnicas e, com apoio do engenheiro Sérgio Ejzenberg, elaborou simulações em 3D que descartariam o contato entre ônibus e carro nas condições descritas. Também são citados elementos, como a ausência de marcas de frenagem na pista e a alegação de que Geraldo Ribeiro teria comentado, antes de sair, que alguém havia “mexido no carro”, sem que a perícia da época buscasse alterações mecânicas.
Apesar de descartar a colisão como causa, o próprio MPF registrou que seria impossível afirmar ou descartar definitivamente a hipótese de atentado por falta de elementos materiais. No entanto, o novo relatório da CEMDP adota um enquadramento jurídico que visa sustentar a responsabilização do Estado com base no princípio do “in dubio pro victima” (na dúvida, a favor da vítima). Se aprovado, como em outros casos, um convênio entre a CEMDP e o CNJ pode gerar a retificação das certidões de óbito de JK e Geraldo Ribeiro para registrar a conclusão de morte violenta atribuída ao Estado.
Operação Condor
O relatório também recupera o contexto político da época e documentos associados à Operação Condor, mencionando uma carta do chileno Manuel Contreras, chefe da polícia secreta do Chile, a João Figueiredo, então chefe do SNI, na qual JK é citado como ameaça, ao lado de Orlando Letelier, assassinado em 1976 em um atentado em Washington. Para o ex-deputado estadual Adriano Diogo (PT), que presidiu a Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, a morte de Juscelino Kubitschek deve ser compreendida dentro desse ambiente de perseguição política articulada entre ditaduras sul-americanas, voltada a neutralizar lideranças capazes de reorganizar a vida democrática no continente. Ele lembra que, no mesmo período, morreram figuras centrais da política brasileira, como João Goulart, JK e Carlos Lacerda, todos com potencial de influência no processo político nacional.
Ao comentar os avanços institucionais em torno da responsabilização do Estado brasileiro por mortos e desaparecidos políticos, Diogo também destacou o peso da mobilização da família de Rubens Paiva na construção dessa agenda. Segundo ele, a atuação persistente de Eunice Paiva e de seus filhos foi decisiva para pressionar o Estado a reconhecer crimes cometidos pela ditadura e influenciou as medidas adotadas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, especialmente a legislação que permitiu o reconhecimento oficial de mortes e desaparecimentos por motivação política.
Diogo afirma que os trabalhos das comissões da verdade em São Paulo já haviam apontado, anos atrás, para a necessidade de reavaliar a versão oficial sobre a morte de JK. Segundo ele, a nova fase do caso, agora conduzida pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), dá consequência institucional a um acúmulo de pesquisas, depoimentos e análises técnicas produzidos ao longo das atividades da Comissão da Verdade de São Paulo, presidida por Gilberto Natalini, e da Comissão Estadual da Verdade da Alesp. “O relatório [da CV-Alesp] foi feito em 2014 e só agora foi convalidado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos”, afirmou. Para o ex-deputado, a importância do novo parecer está em recolocar o caso no centro da política de memória, verdade e reparação: “Graças a Deus, faço parte do pequeno grupo de pessoas que nunca parou de investigar a ditadura”.


