A extrema direita repete mesma ladainha há 70 anos, agora com redes sociais
Opinião
A extrema direita repete mesma ladainha há 70 anos, agora com redes sociais
Colunista do UOL
O presidente Juscelino Kubitschek e seu vice, João Goulart, em 1956: os argumentos para tentar derrubá-los, acreditem, se parecem com os alegados pela extrema direita para tentar impedir a posse de Lula. A questão das urnas, como se sabe, era mero pretexto.Imagem: reprodução
Meus caros, como sabem, estou afastado do "Olha Aqui", neste UOL, e de "O É da Coisa", na BandNews FM e no BandNews TV. Cuido da minha voz. Espero que as coisas voltem logo ao normal. Trouxe o laptop para o hospital e escrevo daqui. Isso, eu posso fazer. Então vamos la´.
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Agora começou a circular aqui e ali, e nasce nas paragens da oposição, com versão comprada diligentemente por setores da análise política (ou coisa que a imita mal), a conversa de que o presidente Lula resolveu antecipar a campanha eleitoral e já operaria no "modo reeleição".
Sempre tenho certa dificuldade quando o óbvio enverga as vestes de um pensamento. Enquanto a reeleição existir e enquanto o mandatário estiver na primeira parte de uma jornada de possíveis dois mandatos, a reeleição não é uma escolha, mas uma imposição política, a menos que mire para cima. Sei, claro!, a que se referem: "Olhem como Lula fala coisas que remetem indiretamente a 2026; tudo o que diz sobre o tarifaço tem um apelo também político..." Ah, não me digam! Como sabemos, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr., Romeu Zema e Eduardo Leite só cuidam da gestão de seus respectivos Estados e de substantivos celestes, não é mesmo?
Reproduzo abaixo um pensamento sofisticadíssimo de política de Tarcísio. No dia em que se fizer uma antologia dos grandes momentos da economia política produzidos por nossos homens públicos, isso não pode escapar:
"Não precisamos mais de uma mentalidade atrasada, da mentalidade de 20 anos atrás. Estamos há 40 anos discutindo a mesma pessoa. A gente está perdendo alguns bondes: o bonde da transição energética, da biotecnologia, da economia do conhecimento. O mundo está de porta aberta para o Brasil e a gente andando em uma ciranda e discutindo picuinha. O Brasil não aguenta mais excesso de gastos, aumento de imposto, corrupção. O Brasil não aguenta mais o PT; o Brasil não aguenta mais o Lula".
Tarcísio disse isso no dia 13 de agosto, num seminário do agro, promovido pelo BTG, em companhia de outros governadores da oposição. Nem vou me ater aqui a essa história de prometer amanhãs sorridentes, "a Idade do Ouro que chegará se todos olharem para onde olho..." Aí faço o de hábito: recomendo que leiam "Mitos e Mitologias Políticas", de Raoul Girardet. É estratégia manjada, mas ainda tem sua eficácia.
Antes, no dia 26 de julho, num seminário da XP, Ronaldo Caiado também resolveu articular divergências e confrontar programas. Assim:
"A minha primeira medida vai ser extremamente simpática: derrotar o Lula".
Ratinho Jr. disse aos empresários do agro:
"Eu acho que essa safra de governadores já veio com a mentalidade daquilo que os países do primeiro mundo vêm fazendo há muito tempo, ou os países que deram um salto no seu desenvolvimento econômico e social".
Não sei o que isso significa. Nem ele. E também não vou aqui, mais uma vez, discorrer sobre os bons indicadores sociais e econômicos do governo Lula. Já o fiz outras vezes e são públicos. Meu ponto neste texto não é esse.
Então os outros podem fazer política, mas Lula não? Diz Tarcísio sobre o presidente: "Estamos há 40 anos discutindo a mesma pessoa". Em 2026, serão 37 anos desde a primeira disputa presidencial do líder petista, em 1989. Sempre em defesa da democracia. O governador de São Paulo e os outros têm a ousadia de se apresentar como esbirros de um golpista, prometendo-lhe, inclusive, indulto, mas apontam o dedo: "Fora daqui aquele que ajudou a reconstruir a democracia e que fez o maior plano de redução da pobreza da historia!" Isso nunca!
"Ah, então não podem fazer oposição?" Claro que sim! Mas condescendendo com o golpismo?
A HISTÓRIA
A direita e a extrema direita brasileiras são patéticas não é de hoje. Tarcísio diz que Lula está na política há 40 anos. E ele próprio está há 70, pelo menos. Não em pessoa, mas o espírito que encarna.
Recomendo vivamente que leiam "Utopia Autoritária Brasileira", do historiador Carlos Fico, que tem este subtítulo: "Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje". E ameaçam, com forte documentação. Somos tão criativos nisso que inventamos até "golpe do bem"...
Atentem, em particular, para o capítulo "Cinco Presidentes e Dois Golpes (pág. 257 a 283). Fico expõe em detalhes as circunstâncias não de um, mas de "dois golpes da legalidade", desfechados pelo marechal Henrique Teixeira Lott, que, de fato, acabaram garantindo a posse de Juscelino Kubitschek. Mas esse não é o ponto aqui. Quero falar dos antecedentes do pensamento de Tarcísio e dos demais governadores de oposição que se colocam como pré-candidatos.
A extrema direita não aceitava a vitória do ex-governador de Minas — e João ainda havia sido eleito para a Vice-Presidência. Na crise que se seguiu ao suicídio de Getúlio, os reacionários inventaram a tese fabulosa do "candidato único", que só pensasse no bem do país, vocês sabem... Hoje em dia, dir-se-ia: "contra a polarização". Esse nome, naturalmente, sairia do campo da direita...
Prestem atenção ao que nos conta Fico:
Em dezembro de 1954, os ministros militares (inclusive o "apolítico general Lott), o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e os chefes dos estados-maiores das três forças assinaram um manifesto sigiloso que entregaram ao presidente Café Filho. O documento continha um apelo em favor de um "movimento altruístico de recomposição patriótica que permita a solução do problema da sucessão presidencial em nível de compreensão e espírito de colaboração interpartidária, sem o acirramento dos ódios e dissensões que vêm de abalar seriamente a vida nacional". Garantiam que nenhum deles seria candidato e defendiam um movimento de união nacional que resultasse no lançamento de um candidato único.
Tratava-se de uma intromissão totalmente indevida dos chefes militares na política. O documento expressava, em última instância, o plano do brigadeiro Eduardo Gomes e do almirante Amorim do Vale de impedir a candidatura de Juscelino Kubitschek. A UDN e setores do PSD, descontentes com a candidatura JK, vinham sugerindo a ideia da "união nacional".
Em janeiro de 1955, Café convocou Juscelino para uma conversa. Encontraram-se na residência de verão da Gávea Pequena. Depois de advogar a tese da candidatura única, Café Filho, "com gesto teatral", deu o manifesto dos generais para que Juscelino lesse — "uma guerra de nervos, tendo por objetivo provocar minha desistência", diria JK."
RETOMO
Em várias passagens, Lott não se sai assim tão bem na reconstituição rigorosa de Fico. De toda sorte, reitero, chamo a atenção aqui para a pauta da direita que tem não 40, mas, nessa formulação, 70 anos: a união nacional contra aqueles que querem dividi-la. E quem quer? Ora, os "outros"
"Não existe, então, algo como 'união nacional', Reinaldo?" Bem, depende de quem fala e para quê? Contra as tarifas de Trump e suas chantagens políticas ou a favor delas? Os governadores candidatos, até agora, preferiram atacar Lula e responsabilizá-lo pelas sanções. Isso não é matéria de opinião; trata-se apenas de uma mentira.
Juscelino e Jango foram eleitos -- à época, em votações distintas --, e a UDN e outros extremistas de direita tentaram por todos os meios impedir a posse. Se você acha que o bolsonarismo exagera na safadeza criativa contra as urnas, prestem atenção a este trecho:
"Um dos argumentos mais extravagantes da UDN contra a eleição de Juscelino dizia respeito ao voto dos eleitores comunistas. Poucos dias depois da eleição, Afonso Arinos recebeu um estudo de Raul Fernandes. ministro das Relações Exteriores de Café Filho, sustentando que os comunistas tinham agido como partido ao recomendar o voto em Juscelino e Jango, embora estivessem na clandestinidade. Assim sendo, a eleição precisaria ser invalidada porque os votos dos comunistas deveriam ser anulados, tendo como base de cálculo a eleição presidencial de 1945, quando o candidato do PCB, então na legalidade, recebeu quase 10% dos votos"
O que lhes parece?
Vocês já se depararam por aí, certamente, com "patriotas" inconformados com o fato de que Lula tenha vencido a eleição no Nordeste. Leiam:
A crise política não tornou a eleição tumultuada. Em outubro de 1955, as pessoas votaram em clima de tranquilidade. Feita a apuração, Juscelino e Jango saíram vitoriosos, derrotando os candidatos da UDN, Juarez Távora e Milton Campos, mas isso não acalmou a cena política.
A Cruzada Brasileira Anticomunista, do almirante Pena Boto, publicou uma matéria no jornal O Globo dizendo que "a dupla Juscelino-Jango no poder significaria o ressurgimento dos corruptos métodos do governo da nefasta era getuliana, métodos que levariam fatalmente o Brasil à bolchevização, esta acelerada por medidas suicidas tais como a legalização do Partido Comunista e o 'reatamento de relações diplomáticas e comerciais com a Rússia soviética". A Cruzada conclamava:
"É indispensável impedir que Juscelino e Jango tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos!". Afirmando a necessidade de pôr "a pátria acima de tudo", o manifesto sustentava que era pertinente impedir a posse porque os dois tinham sido eleitos pelo "povo mal orientado", pela "massa ignorante" manipulada pela demagogia, pelos partidos desmoralizados, com a participação do PCB clandestino e tendo obtido apenas uma minoria de votos".
Entendo que Tarcísio queira se livrar dos 40 anos de Lula para que possa pôr no lugar os 70 -- o golpismo é mais antigo; trato da similaridade de discursos -- da direita e da extrema direita que hoje representa.
Saibam: não há sob o sol argumentos novos da fascistada e dos afascistados. Todos estavam na crise que levou Getúlio Vargas ao suicídio, na tentativa de impedir a posse de Juscelino e, depois, na deposição de João Goulart, com o golpe de 1964.
E foram todos reciclados na tentativa de golpe de Jair Bolsonaro, a que os governadores de oposição, se eleito um deles, prometem dar o desfecho de sempre: impunidade.
Há, sim, hoje em dia, a força devastadora das redes. E, é evidente, o rebaixamento retórico. Mas isso é o de menos. A indecência é a mesma. E também com porta-vozes, como há 70 anos.



