Quinta-feira, 27 de abril de 2017.

REVELAÇÕES DA ODEBRECHT. Vanner Boer

publicada em 20 de abril de 2017
REVELAÇÕES DA ODEBRECHT
Vanner Boer


"As revelações da Odebrecht ainda vão apresentar confirmações. Poucas surpresas, para quem vem acompanhando política há muito tempo. Contudo, há uma constatação que me surpreendeu pela precisão com que foi pinçada por alguns amigos e amigas. A Presidenta Dilma é uma mulher de formação marxista-leninista, programática e preparada para uma vida disciplinada. Deixou de ser marxista há muito tempo, mas o marxismo, a disciplina e a moral não saíram dela. A moral a que me refiro é a dos comissários, dos juízes políticos dos tempos de um comunismo mais puro, mais ideológico. Esses comissários, muitas vezes jovens e mulheres, tinham uma sólida formação política e sob a ótica do marxismo, determinavam sindicâncias, relatavam distorções de conduta de agentes do estado, revelavam traições e outros males de conduta. Em casos extremos (na guerra, por exemplo) podiam determinar a execução de determinada pessoa por roubo, estupro, traição e outros crimes, após um julgamento popular sumário. Eram temidos e odiados, porque a maior parte do povo soviético não tinha formação marxista e mal compreendia porque determinadas ações eram tão severamente punidas. Resguardada a natureza humana falha e com diferentes paixões, em geral os comissários eram uma força moral do Partido Comunista nas diversas instâncias onde o Estado estava presente.
A Presidenta Dilma Roussef não é comunista mas agiu em seus dois mandatos com uma força moral que lembra esse resquício do marxismo-leninismo. Muitos de nós do campo progressista (não necessariamente comunistas), temíamos que essa rigidez, pudesse ser um defeito de ingenuidade e incompetência política.
As delações da Odebrecht demonstraram exatamente a grandeza da Presidenta Dilma Roussef, ao revelar a acidez da força econômica destruindo a todos e a resistência quase solitária de uma mulher que incorporou desde muito jovem, valores inabaláveis de moralidade, de cuidado com a coisa pública, de respeito aos votos, à democracia e à confiança que, infortunadamente a colocaram no timão de uma caravela de bucaneiros e ratazanas.
Somente repito aqui o que alguns comentaristas e amigos já vem falando: a Presidenta Dilma Roussef sofreu os piores ataques, as piores vilanias, um massacre pessoal e traição como uns poucos heróis dessa terra. Foi retirada à força por homens velhos e ricos, velhacos, misóginos, estupradores de consciências, à revelia de algumas poucas mulheres que estão ali, nas altas câmaras e cortes. Aliás, pensam esses velhos de todas as idades, que as mulheres servem apenas como bonecas para “sentarem no colo” dos seus rufiões.
Lembro-me na primeira eleição de Dilma Roussef, eu estava cansado e desgostoso com a política sendo feita pela coalização do PT e PMDB. Meses antes, os ataques de Serra foram de tal baixeza, que resolvi arregaçar as mangas para defender essa mulher. Não defendi propriamente o PT, mas a simbologia do que significava uma mulher presidente, de esquerda, em um país dominado pelo patriarcado. Nós ganhamos. Na reeleição, estando em Minas Gerais e sabendo da rede de compadres, capitães, gerentes, leões-de-chácara e peões do ex governador em todo o estado, percebi que o jogo iria ser muito mais pesado. E foi. E continuou sendo.
Repito o que alguns comentaristas e amigas já escreveram (e menciono aqui com deferência Miriam Morais e Sumara Ruiz): a democracia e o Brasil somente poderão retomar a sua história, com garantia mínima de direitos, se o impedimento da Dilma Roussef for anulado. Eu dava como perdido e página virada o golpe. Que a luta era outra, outro campo, outro momento, com forças diferentes. Minhas amigas escreviam com romantismo que não, que somente poderíamos exercer a democracia se o golpe fosse revertido; e eu lia com o respeito da dúvida. Os acontecimentos recentes com as provas factuais, as narrativas coerentes, as circunstâncias reveladoras, do grande embuste que o pais sofreu nas mãos dessa súcia de políticos, desvelaram a grande personagem da nossa história que é a Presidenta Dilma Roussef.
Não há mais dúvidas, as amigas tinham razão: não há outra alternativa do que anular o golpe e reconduzir a quem é de direito pleno, pelo voto, o cargo de presidente da república. Não é pedindo que vamos conseguir esse intento, mas exigindo seja como for, que os nossos direitos sejam respeitados, que a nossa história de democracia e a nossa dignidade seja respeitada.
Dilma nada tinha a ganhar nessa resistência heróica a não ser um lugar na história presente de coerência de trajetória e reserva moral da nação. Como a primeira mulher presidente desse país, podemos dizer que sua passagem ainda inconclusa, mudou a história do Brasil, para sempre."

(Vanner Boere)
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