Fala a repórter das lutas do Sul Global

Fala a repórter das lutas do Sul Global

Fala a repórter das lutas do Sul Global

Ela entrevistou, entre tantos, Fidel, Brizola e Arafat – e conta os bastidores. Uma das fundadoras dos Cadernos do Terceiro Mundo analisa a trajetória do Movimento dos Não-Alinhados. E aponta: hegemonia do Ocidente pode estar chegando ao fim – e, com ela, o da supremacia branca

Descolonizações

Por 

 

Foto: Núcleo Piratininga

Boletim Outras Palavras

 

Beatriz Bissio, doutora em História pela UFF e Professora Associada do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ, revela-se nesta entrevista uma intelectual de rara síntese, cuja atuação rompe os limites da “torre de marfim” acadêmica. 

Sua trajetória é marcada por uma densa e diversa experiência, tendo servido como coordenadora do Comitê de Relações Internacionais do estado do Maranhão durante a administração de Jackson Lago (2007–2009) e, mais recentemente, exercido a vice-direção do prestigioso Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no biênio de setembro de 2022 a agosto de 2024.

Este percurso de rigor e serviço ao Brasil foi selado com a Medalha da Vitória, concedida em 2013 pelo então ministro da Defesa, o embaixador Celso Amorim, reconhecendo uma vida dedicada à compreensão das dinâmicas globais. Como ensinou Marc Bloch, o historiador busca onde fareja a carne humana; Bissio, contudo, alia a essa busca a sensibilidade de Claude Lévi-Strauss para decifrar as estruturas que moldam a alteridade. Fundadora da revista Cadernos do Terceiro Mundo, ela dialogou com os arquitetos do século XX, de Nelson Mandela a Yasser Arafat, trazendo nesta conversa a “verdade” apreendida no olhar de Fidel Castro e a humanidade resiliente de Leonel Brizola no exílio.

 

Leia a entrevista de Thiago Gama, historiador e doutorando da UFRJ, para o Outras Palavras.

Sua trajetória intelectual e jornalística constituiu uma verdadeira cartografia da subjetividade do Sul Global, tendo a senhora habitado o epicentro das grandes mutações do século XX ao dialogar com figuras que não apenas testemunharam a história, mas a esculpiram. Gostaria de focar na figura de Fidel Castro que, para a minha geração, simboliza a resistência contra o imperialismo. A senhora foi uma das poucas jornalistas brasileiras/uruguaias a entrevistar esse líder revolucionário, que sobreviveu a centenas de tentativas de assassinato da CIA. Gostaria de saber qual foi a sua sensação de estar diante da própria História. O que a senhora viu naqueles olhos e qual foi a “verdade” que aquele homem lhe transmitiu?

Foi, antes de tudo, um sentimento de privilégio e de fascínio. Tive a honra de ser recebida por um homem da estatura de Fidel, sentada em uma pequena mesa onde estávamos apenas eu, ele e uma secretária jovem que tomava notas. Interpretei esse privilégio como um reconhecimento ao trabalho jornalístico desenvolvido pela equipe da revista Cadernos do Terceiro Mundo, em representação da qual, como membro do núcleo que a fundara e dirigia, eu estava lá, sentada ao lado de Fidel Castro.

Foi uma conversa de mais de duas horas, em um dia de muitos compromissos dele, em função dos quais vestia o seu uniforme. O que mais me impressionou foi vê-lo falar com paixão e arrebatamento, especialmente sobre Cuba — um amor pela sua pátria e pela pátria latino-americana que transbordava pelos poros e nos impregnava. Além disso, Fidel era um homem de uma erudição e um conhecimento sem limites; leitor voraz, ele manejava os dados como se tivesse um computador na cabeça. Estávamos em um momento difícil, anterior ao colapso da União Soviética, mas já com sintomas claros do que viria. Fidel ainda mantinha a expectativa de que o desfecho não ocorresse, mas já antevia as dificuldades que viveria Cuba sem o apoio soviético. Nesse contexto, ele me disse uma frase que acabou sendo o título daquela entrevista: “O socialismo não se esgota com uma experiência histórica. O socialismo é mais profundo e transbordará essa experiência”. Se fosse resumir o sentimento que ficou em mim depois dessa conversa, diria que foi o de um sentido respeito por um homem com um profundo senso de responsabilidade perante seu povo e perante a história.

A senhora considera que o experimento socialista cubano foi o mais bem-sucedido no mundo, chegando mais perto do ideal de pensar o ser humano em sua totalidade e igualdade?

Eu não gostaria de fazer comparações. Mas posso falar do que mais admiro no processo cubano: a capacidade de transformar o ser humano, de extrair dele o que há de melhor. Isso é fundamental em qualquer processo de transformação social — elevar a humanidade a um patamar superior onde possamos nos perceber todos iguais. Cuba demonstrou que um processo transformador é capaz de dar dignidade ao ser humano. E constatei isso através de inúmeras experiências históricas, algumas das quais como testemunha, inclusive na África. O internacionalismo do povo cubano mostrou a estatura desse ser humano surgido da experiência revolucionária. Vi a entrega de cubanos anônimos — médicos, professores, biólogos, engenheiros, e até mesmo lutadores de boxe — que partiram em missões internacionalistas para partilhar o conhecimento e a experiência que receberam através da Revolução. Essa solidariedade, que muitas vezes significou a entrega da própria vida, como ocorreu na participação cubana na independência de Angola, é para mim a demonstração irrefutável de uma proposta revolucionária vitoriosa.

Gostaria de tratar agora de Leonel de Moura Brizola. Cresci em uma família profundamente brizolista; minha avó era uma de suas grandes entusiastas do projeto educacional que ele representava, falava com paixão sobre os CIEPs e o projeto de educação dele e de Darcy Ribeiro. Para o povo fluminense, o termo “Brizolão” tinha uma conotação carinhosa, embora a direita tentasse usá-lo para estigmatizar o projeto. A senhora conheceu Leonel Brizola no Uruguai, no exílio. Quem foi esse homem fora dos holofotes? Ele mantinha no privado a mesma emoção e a paixão que víamos em seus discursos?

Brizola era uma pessoa admirável; continuo a ter por ele um profundo carinho e respeito. Eu o conheci no Uruguai (meu país de origem), no exílio, num momento de grandes incertezas em relação ao futuro do Brasil e à possibilidade do retorno. O exílio para Brizola, assim como para outros brasileiros que conheci naquela altura, representava um desgarramento doloroso. Eu mesma vivi essa experiência uns anos mais tarde. Brizola expressava o sofrimento pela distância da pátria e pela impossibilidade de intervir na política nacional. Mas nunca — nem ele nem os demais exilados — deixaram de buscar formas de contribuir para o processo de retorno à democracia. A ditadura sabia disso e pressionou o governo uruguaio a confiná-lo, junto com toda a família, em prisão domiciliar, em Atlântida, um balneário a 80 km de Montevidéu. Essa foi uma etapa muito difícil do exílio, porque levou Brizola e Dona Neusa a optar por enviar os filhos para o Rio Grande do Sul, onde ficaram a cargo da família dela.

Lembro-me vividamente do dia em que o conheci. Imaginei que o encontro seria em um restaurante formal em Montevidéu, mas paramos na estrada, em um local simples. E como fiquei um pouco surpresa do local escolhido para a parada no meio da estrada, Brizola me disse, de forma muito afetuosa: “Beatriz, eu quis te receber aqui porque este é o restaurante preferido dos caminhoneiros, e os caminhoneiros são os que melhor sabem escolher restaurantes”. Brizola era essa figura avassaladora, que irradiava confiança no futuro, amor pelo Brasil e orgulho de seu povo. No privado, era extremamente afetuoso e mantinha uma devoção profunda por Dona Neusa, uma mulher extraordinária. Tendo sido filha de uma família privilegiada do Rio Grande do Sul (ela era irmã do presidente João Goulart), no exílio ela pessoalmente organizava um sopão destinado a alimentar os exiliados que não tinham família nem dinheiro para se sustentar. Lembro-me de ter conversado muito com ela sobre as dores do exílio e a separação dos filhos.

Posso afirmar sem duvidar um instante que Brizola foi um homem de uma coerência e de uma sensibilidade humana admiráveis, além de suas qualidades de estadista.

Diante da necropolítica desenfreada que hoje converte Gaza em um laboratório de extermínio técnico, como você interpreta a persistência do espectro de Yasser Arafat na gramática da resistência atual da Palestina? Como foi entrevistá-lo para Cadernos do Terceiro Mundo?

Entrevistei Yasser Arafat três vezes, sempre cobrindo a questão palestina para Cadernos do Terceiro Mundo, junto com Neiva Moreira. A primeira e mais marcante das entrevistas foi em Beirute, em 1979, em plena guerra civil do Líbano. A segunda foi em Tunes, depois que a OLP foi obrigada a mudar-se para a Tunísia, em 1982, como consequência da invasão israelense ao Líbano. E a terceira foi durante a reunião, em novembro de 1988, em Argel, do Conselho Nacional Palestino (CNP), o Parlamento palestino no exílio. Nessa ocasião histórica, Yasser Arafat leu a Declaração de Independência da Palestina, escrita pelo poeta Mahmoud Darwish, que acabara de ser aprovada pelo CNP. Vou me deter na entrevista feita no Líbano, porque foi a do primeiro impacto com a figura desse líder cuja trajetória eu já acompanhava e continuaria a acompanhar até a sua morte.

Tínhamos sido avisados de que a entrevista poderia acontecer, mas não havia certeza nem data. Só um conselho: “fiquem atentos de noite, pois é o horário em que nosso líder, quando possível, recebe os visitantes”. E assim ocorreu.

Já entrada a madrugada, nos acordou um militante com a missão de nos levar até Abu Amar, como também era conhecido Arafat, seguindo a tradição árabe de chamar a pessoa, carinhosamente, como “pai” ou “mãe de” … Depois de muitas voltas em uma Beirute Ocidental em silêncio — essa era a parte muçulmana da capital libanesa, separada da parte cristã, durante a guerra civil pela Linha Verde — chegamos ao local do encontro. Nos recebeu um Yasser Arafat visivelmente cansado, olhos vermelhos de horas sem dormir, mas profundamente afetuoso. Em inglês, idioma que usou durante toda a entrevista, pede desculpas pelo horário e explica que acaba de chegar de Teerã, de um importante encontro com o aiatolá Khomeini e que, ao tomar conhecimento da nossa presença e do fato de que há dias aguardávamos sermos recebidos por ele, tinha decidido não nos fazer esperar mais. Na verdade, não sabia se poderia nos receber outro dia, em função dos compromissos que lhe aguardavam como consequência daquele encontro no Irã. No momento, nós não tínhamos ideia da importância dessa revelação. Mas esse encontro de Arafat com Khomeini, só seis dias após a vitória da Revolução Islâmica, em 18 de fevereiro de 1979, dava início a uma virada diplomática da maior importância para os palestinos e para toda a região: o Irã, antes fiel aliado de Israel e dos Estados Unidos, assumia a causa palestina como o centro de seu compromisso revolucionário, um compromisso que perdura até hoje. E, como símbolo dessa mudança, quando ainda Arafat estava em solo iraniano, foi colocada uma placa com a inscrição “Embaixada da Palestina” no topo da porta da frente do edifício que até poucos dias antes era a Embaixada de Israel.

A conversa com Arafat fluiu como se já nos conhecêssemos, sem formalidades, à vontade, livre. Ele explicou a longa caminhada desde a fundação da Organização da Libertação da Palestina até aquele momento, as dificuldades de comunicação com as populações dos territórios ocupados, as carências nos campos de refugiados. Também exaltou a solidariedade dos libaneses e dos povos do mundo que se solidarizavam com sua causa. A frase que ficou gravada em mim foi esta: “A nossa luta é complexa. Não estamos enfrentando só a Israel; enfrentamos também os Estados Unidos”. A despedida foi um longo abraço. Esse gesto tão carinhoso e a deferência de priorizar a nossa entrevista mesmo naquelas circunstâncias me cativaram; só fizeram aumentar o meu respeito e admiração por ele. Sei que Arafat não é unanimidade entre os palestinos. Que grande líder o é? Talvez ele tenha confiado demais na correção dos adversários com os quais, anos mais tarde, se reuniu e que o traíram e acabaram assassinando-o. Hoje está demonstrado que ele foi envenenado. Mas ninguém pode negar que a sua entrega à causa palestina foi o eixo de sua vida e que assim ele se tornou um símbolo para o mundo. O genocídio de que é vítima hoje o povo palestino nos conclama a não nos omitir e a denunciar, com todas as nossas forças, os seus perpetradores e os seus aliados! Além de ser um dever, também é um tributo à memória de Yasser Arafat.

Em seu trabalho sobre a continuidade e ruptura na diplomacia do Sul, a senhora identifica os BRICS como herdeiros do “Espírito de Bandung” e da busca por novas regras na economia internacional. Diante da recente expansão para o BRICS+, como manter a coesão desse legado de soberania e não-alinhamento em um bloco com interesses geopolíticos e regimes tão heterogêneos?

A Conferência realizada em Bandung, Indonésia, de 18 a 24 de abril de 1955, reuniu líderes de 30 estados asiáticos e africanos, recém-independentes, e de representantes de movimentos de libertação. Em conjunto, representavam um bilhão e 350 milhões de seres humanos! Uma conferência inédita, só superada em número e representatividade dos participantes pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Simbolicamente, ela anunciava o momento em que uma significativa parcela da Humanidade tomava consciência de seu papel e fazia ouvir sua voz. Em plena Guerra Fria, o “espírito de Bandung” marcou o processo de libertação do mundo colonial e definiu o caminho para a inserção internacional dos países que, dando seguimento a esse legado, fundaram em 1961 o Movimento Não Alinhado, com uma condenação explícita ao racismo, ao colonialismo e ao imperialismo.

O processo de tomada de consciência dos desafios e das potencialidades dos países recém-independentes levou, nos anos 1970, no auge de sua atuação, o Movimento dos Países Não Alinhados a adotar duas importantes reivindicações: a implementação de uma Nova Ordem Econômica Mundial (NOEM) e de uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC). A primeira era uma crítica às regras de jogo da economia e das finanças internacionais herdadas da Segunda Guerra Mundial, com propostas visando a valorização e industrialização das matérias-primas (os recursos naturais, extraídos pelas grandes corporações das antigas metrópoles coloniais, mantendo as relações de dependência com as ex-colônias). A segunda proposta visava equilibrar a produção e o acesso à informação entre os países desenvolvidos e o então chamado Terceiro Mundo (conceito parcialmente incorporado hoje na ideia de Sul ou Sul Global), com uma condenação à atuação dos grandes monopólios informativos internacionais.

O diagnóstico do Movimento Não Alinhado era correto, tanto em relação ao tema das necessárias mudanças na arquitetura da economia mundial quanto às nefastas consequências da concentração informativa em poucas agências e veículos do Norte. Mas a correlação de forças naquele momento histórico não permitiu a implementação dessas alternativas, nem no plano econômico, nem no terreno das comunicações. O próprio movimento foi se enfraquecendo, diante dos impasses políticos e econômicos, e pouco a pouco perdeu protagonismo no cenário internacional.

No entanto, nas primeiras décadas do século XXI, o mundo já era bem diferente daquele das décadas de 1950 a 1990 do século passado. Países do Sul Global, em função de avanços relativos conquistados nesse período, transformaram-se em potências de médio porte e passaram a ser identificados como líderes de suas respectivas regiões. De forma concomitante, as suas respectivas lideranças passaram a identificar interesses comuns no cenário internacional… E daí surge o processo, já conhecido, da formalização do bloco dos BRICS.

E o sucesso dos BRICS, como é natural, atraiu novos parceiros. Foi assim também com o Movimento Não Alinhado. Não tinham todos os membros do movimento as mesmas definições ideológicas, nem os mesmos sistemas de governo, nem a mesma religião, mas havia interesses comuns e tinham em comum a rejeição ao colonialismo, ao imperialismo e ao racismo. Em particular, estavam unidos pela necessidade de enfrentar o trágico legado colonial e o presente, desafiado pela exploração neocolonial.

Em 2025, setenta anos depois da Conferência de Bandung, muitos dos problemas que foram objeto de análise e debate naquele encontro pioneiro continuam desafiando a maior parte da Humanidade. Mas hoje a correlação de forças é diferente. Os BRICS têm a capacidade que nunca teve o Movimento Não Alinhado de, por exemplo, financiar grandes projetos de desenvolvimento, seja com bancos estatais dos seus membros, em particular da China, seja através do Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como banco dos BRICS.

Será o crescimento dos BRICS e a sua diversificação um empecilho para o seu sucesso? É uma questão em aberto. Mas a experiência histórica nos mostra que não foi a diversidade dos países membros do Movimento Não Alinhado o fator que lhe fez perder o seu dinamismo e a sua relevância: foram os fracassos nas suas tentativas de mudar as regras do jogo nas relações com o mundo desenvolvido, nos dois terrenos vitais para o desenvolvimento equitativo, a economia junto com as finanças e a comunicação.

Por enquanto, os BRICS têm conseguido avanços significativos no terreno econômico e financeiro, impulsionando o comércio com o uso de moedas próprias, financiando projetos de infraestrutura e buscando um sistema alternativo ao SWIFT utilizado pelas instituições financeiras capitalistas globais. Se eles continuarem avançando nessa direção, com capacidade real de criar alternativas nesses terrenos, dificilmente diferenças ideológicas ou políticas falarão mais alto.

No capítulo The Concept of Sovereignty and the Experience of the South (2025), a senhora propõe ampliar o conceito de soberania para incluir o direito explícito dos Estados sobre seus recursos naturais para o desenvolvimento. De que forma essa reformulação teórica pode fortalecer juridicamente os países do Sul contra intervenções estrangeiras que se legitimam sob justificativas humanitárias?

Em teoria, o sistema internacional moderno está formado por Estados soberanos com autoridade exclusiva sobre seus territórios, a partir de fronteiras definidas e reconhecidas. Mas essa não é a experiência histórica da maior parte dos países do Sul, ou do Terceiro Mundo, como eram chamados nos anos 60–90 do século passado.

Com poucas exceções, pelo menos desde a segunda metade do século XX, as violações da soberania sofridas por Estados independentes ocorreram em países do Sul. Essas intervenções, sejam elas propiciadas por antigas potências coloniais, pelos novos hegemons ou por alianças militares de várias potências, geralmente têm como objetivo neutralizar uma decisão soberana do país atacado relativa aos seus recursos naturais. E sabemos bem que, na maioria dos casos, as intervenções estrangeiras são disfarçadas com justificativas humanitárias. Na realidade, o princípio da igualdade entre os Estados-membros da ONU nunca foi respeitado pelos mais poderosos.

Isso me lembra os ensinamentos de Confúcio, o sábio chinês nascido em 551 a.C., cuja influência ainda é muito significativa não só na China, mas em toda Ásia. Ele defendia a sinceridade como a base dos procedimentos corretos nas relações sociais. A “necessidade de dizer as coisas por seu nome” é um dos pilares da filosofia confucionista, conhecida como a doutrina da Retificação dos Nomes (Zhengming). Para Confúcio, a desordem social, política e moral resulta da falta de correspondência entre a realidade e as palavras utilizadas para descrevê-la: chamar as coisas pelo seu nome é uma questão de integridade. Quando as palavras perdem o significado ou são usadas para esconder a realidade, em especial as injustiças, o caos se instala.

Que sábio e singelo conceito! Se aplicarmos os ensinamentos de Confúcio, seria necessário reconhecer que, se o interesse das potências imperialistas está em jogo, o conceito de soberania perde validade. Temos o recente caso da agressão à Venezuela por parte dos Estados Unidos e do sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cília Flores. Seguindo as lições de Confúcio, nos perguntamos: qual o motivo? Petróleo!

Em resposta anterior, mencionei a importância do legado da Conferência de Bandung e dos Não Alinhados. A experiência de participar do convívio mundial como países independentes e supostamente soberanos mostrou aos países do Terceiro Mundo que a soberania não ficaria completa até que eles pudessem assumir o controle de seus recursos naturais e de sua economia — o que significava romper definitivamente a dependência das antigas metrópoles.

Hoje torna-se claro que a Carta das Nações Unidas, assinada em junho de 1945 e ratificada pelos 51 países que existiam na época, já não reflete a nova configuração do mundo. Como resultado, a própria organização ficou sem instrumentos para responder a situações cada vez mais conflituosas, perdendo gradualmente a sua eficiência e credibilidade. Com uma ONU composta atualmente por 193 membros plenos, além de observadores, a revisão da Carta e da estrutura da organização está na agenda mundial há tempos. Num momento em que assistimos ao desmantelamento dos alicerces do direito internacional, onde nem mesmo a questionável “ordem internacional baseada em regras” definida pelos Estados Unidos vigora, faz-se evidente que não só o conceito de soberania deve ser revisado. Mas, quando houver condições para promover uma iniciativa internacional destinada a atualizar a Carta e a estrutura das Nações Unidas — uma meta que hoje faz parte, por exemplo, da plataforma dos BRICS — o conceito de soberania, central do convívio internacional, sem dúvida deverá ser definido com clareza e com a amplidão necessária. Tradicionalmente, afirma-se que “soberania é o poder supremo, absoluto e independente de um Estado para governar seu próprio território”, etc. A nova redação deveria incluir de forma explícita o direito de cada Estado de dispor dos seus recursos naturais para promover o seu desenvolvimento.

Analisando seu artigo sobre como a parceria estratégica entre China e Rússia pode mudar o futuro da Eurásia, qual é a sua avaliação sobre o risco de o Sul Global migrar de uma dependência ocidental para uma nova centralidade asiática, sem necessariamente atingir uma autonomia sistêmica real?

Estudos recentes mostram a profundidade das mudanças no cenário internacional. Podemos citar os que afirmam, com base em projeções do FMI, que pela primeira vez em séculos o Produto Interno Bruto dos países do Sul Global ultrapassou o dos países do Norte Global. Uma expressão muito instigante dessas mudanças é a reivindicação do ex-diplomata de Singapura, atualmente professor emérito no seu país, Kishore Mahbubani, de que o assento permanente do Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU passe a ser ocupado pela Índia, como parte das reformas necessárias na estrutura das Nações Unidas. “Não há dúvida alguma de que a Índia é hoje a terceira economia mais poderosa do mundo”, afirma Mahbubani. Para o ex-diplomata, o Conselho de Segurança da ONU precisa de reformas urgentes e a Índia deve obter o seu lugar de direito como membro permanente do órgão máximo da organização. “A economia da Índia já ultrapassou a do Reino Unido e, até 2050, espera-se que seja quatro vezes maior do que a britânica”, afirma o ex-diplomata. Em 1945, as maiores potências se reservaram o direito de ter assentos permanentes e poder de veto no Conselho de Segurança. É hora de adotar os mesmos critérios hoje, reconhecendo o lugar que corresponde às potências do século 21.

Optei por começar a minha resposta com estes exemplos porque a aliança estratégica entre a China e a Rússia é consequência e, ao mesmo tempo, expressão das profundas mudanças em curso na geopolítica mundial. Por primeira vez em séculos — pensemos na icônica data de 1492! — o predomínio ocidental no mundo parece estar chegando a um fim. E essa mudança não terá somente um significado geopolítico, também poderá levar à superação do mito da “supremacia da raça branca”, alicerce da justificativa da dominação colonial e neocolonial. Se o historiador Eric Hobsbawn chamou o século 19 de “o século da Europa” e o século 20 foi por ele definido como o “século americano” (dos Estados Unidos), no futuro o século 21 será visto como “o século da Ásia”?

É nesse contexto que deve ser analisada a crescente cooperação entre Rússia e China, definida pelos respectivos chefes de Estado como uma “aliança estratégica”. Por que vincular essa aliança a um novo cenário geopolítico? Porque o Ocidente demonstra não estar preparado (nem resignado) à perda de hegemonia diante do maior peso do continente asiático na economia mundial e das consequências dessa mudança. O exemplo mais evidente é a contínua expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN; em inglês, NATO — North Atlantic Treaty Organization), que deveria ter se dissolvido, como aconteceu com o Tratado de Varsóvia, depois do fim da União Soviética. Mas, ao contrário de desaparecer, a OTAN avançou ano após ano na direção do Oriente.

A partir dos primeiros anos do século 21, a China e a Rússia, superadas as questões fronteiriças e algumas divergências menores em outras esferas, optaram por se fortalecer mutuamente assinando acordos de envergadura em áreas estratégicas — energia e segurança, em particular. O processo avançou para o nível de aliança estratégica com a chegada ao poder de Xi Jinping e sua sintonia com o presidente Vladimir Putin.

Ambos os países também são membros de acordos regionais como a Organização de Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization, SCO), fundada em 2001, chamada em meios de comunicação ocidental de “a OTAN do Oriente”. Ela é, de fato, uma instância chave de articulação euroasiática, mas não tem poder militar, nem objetivos, nem “modus operandi” comparáveis aos da aliança militar do Ocidente.

A China é hoje a principal parceira comercial da Rússia e detalhe importante: os projetos de cooperação são efetivados através de pagamentos recíprocos utilizando as moedas nacionais, pois um dos objetivos da Rússia e da China é diminuir a influência do dólar no comércio internacional e, ao mesmo tempo, evitar riscos cambiais. O fundamento dessa decisão torna-se evidente diante das sanções impostas à Rússia pelos Estados Unidos e seus aliados e das retaliações comerciais em relação à China. A Rússia e a China também são membros fundadores dos BRICS e, nesse contexto, reafirmam constantemente o seu compromisso com os princípios fundamentais do direito internacional e com o papel central das Nações Unidas, acrescentando que os países do bloco rejeitam “a política de pressões coercitivas e de cerceamento da soberania de terceiros Estados”.

Mas é pertinente perguntar o que significará para a Humanidade como um todo a emergência da Ásia e, particularmente, a aliança estratégica Rússia-China, potências de primeira grandeza. Será a repetição de um ciclo de dominação com novos amos? Pessoalmente, me somo aos estudiosos que se apoiam na história e na atuação no presente para afirmar que nem a China nem a Rússia têm atuação comparável às potências ocidentais na relação com o resto do mundo, nem manifestam vocação de conquista colonial ou exploração neocolonial. (Não é diretamente o tema que estamos tratando, mas já deixo claro que não interpreto a guerra na Ucrânia como uma expressão da ambição de conquista territorial por parte da Rússia, mas como fruto de um contexto originado por diversas variáveis, entre elas a expansão da OTAN).

Praticamente até o fim do século 18, a China foi uma das nações mais poderosas do mundo. Mas não há registros de colonização ou agressão contra outros países. A diplomacia da China hoje é fruto do legado cultural milenar de uma nação que sofreu a exploração do Ocidente e se reergueu apelando à sua história e suas tradições. Em particular, a proposta do presidente Xi Jinping de uma “Comunidade Global de Futuro Compartilhado”, conceito central da diplomacia chinesa, deixa claro o quanto a proposta é alicerçada no anseio de reformular a governança global através da cooperação mútua, do respeito à soberania e do desenvolvimento sustentável, promovendo um mundo multipolar como alternativa ao confronto de blocos e ao protecionismo. Todas as manifestações e documentos oficiais chineses trabalham com a ideia da cooperação para a procura de um futuro de justiça para todos. E a mesma proposta está presente nos documentos assinados de forma conjunta com a Rússia.

Não vejo sustentação na história, nos fatos do presente nem nos documentos emitidos pelos respectivos governos, elementos que justifiquem o temor de uma repetição da história de Ocidente, de dominação e exploração, com variável oriental. Pelo contrário, a análise indica uma consciência de que os limites do nosso planeta exigem pensar num futuro comum para toda a Humanidade. E admitir que a resposta aos desafios atuais não virá do confronto, mas da cooperação.

Um dos seus projetos investiga como as teorias de pensadores do Sul Global contribuem para criar “gramáticas de transformação social”. Como essas ferramentas decoloniais podem ser traduzidas em estratégias diplomáticas concretas para que países latino-americanos e africanos superem a condição de subalternidade acadêmica e política?

Em primeiro lugar, necessito registrar que me resulta difícil concordar com a afirmação de que os países latino-americanos e africanos apresentam a condição de subalternidade acadêmica e política.

Lembremos que o termo foi utilizado inicialmente por Antônio Gramsci, na obra “Cartas do Cárcere” (1947). Como filósofo marxista, Gramsci utilizou o termo subalterno para se referir a uma categoria cuja voz não era ouvida e não participava do poder. No contexto de sua obra, entende-se como uma referência ao proletariado. A utilização posterior do termo, principalmente por estudiosos indianos, entre os quais particularmente Gayatri Spivak, com o seu livro “Pode o subalterno falar?”, ampliou o conceito e, em certa medida, o popularizou. Mas também colocou maior peso na condição de inferioridade, subordinação e dependência do subalterno em relação a um grupo dominante.

Daí a necessidade de questionar se a produção acadêmica e a atuação política dos países latino-americanos e africanos podem ser qualificadas de subalternas. Penso que não.

Tanto no terreno das ciências humanas quanto das ciências puras ou fundamentais e das ciências aplicadas, a América Latina e a África têm inúmeras e valiosas contribuições. As nossas universidades, assim como muitas das universidades africanas, estão muito bem avaliadas no ranking global. Aliás, eu faço questão, com os meus alunos, de registrar que houve universidades no continente africano antes de terem sido fundadas universidades no continente europeu.

A percepção dessa suposta subalternidade origina-se, em boa medida, na política dos centros de produção de conhecimento do Norte que criam muitas dificuldades para acolher e valorizar as contribuições vindas das nossas regiões. Também contribui para essa dificuldade certa atitude de círculos acadêmicos mais tradicionais dos nossos países, abertos a acolher como válido o que é oriundo do Norte e menos propícios a reconhecer o valor e a importância da produção dos nossos pesquisadores, acadêmicos e estudiosos. Afortunadamente, isso está mudando e mudando rapidamente.

Mas, indo ao cerne da sua questão, as ferramentas decoloniais não estão pensadas para ter impacto direto na diplomacia ou em outras áreas da política. Mas, citando aquele ditado que diz “os livros não mudam a sociedade, mas mudam a cabeça dos que podem mudar a sociedade”, eu diria que essa ideia se adapta perfeitamente ao impacto das obras dos pensadores do Sul Global conhecidas como teorias decoloniais. Uma frase que nos ajuda a entender o que essas obras representam é a afirmação do sociólogo peruano Anibal Quijano que diz “continuamos a ser o que não somos” … Ou dito de outra forma: continuamos a nos ver através das lentes de quem nos definiu de fora. E quem falou por nós? Quem nos tirou a voz? O poder colonial e o sistema de dominação neocolonial, que se perpetuou depois das nossas independências, não só através da espoliação econômica, mas utilizando um mecanismo mais perverso: a imposição de visões de mundo e de valores nos quais somos apresentados sempre como inferiores. Hoje, a mídia multiplica esse poder de submeter os nossos corações e mentes.

As teorias decoloniais dissecam esses mecanismos de perpetuação da dominação; nos fazem questionar aquilo que tínhamos como a única forma de nos ver, de interpretar a nossa história. E, ao fazê-lo, criam as condições para que cada um de nós, com senso crítico, conhecimento histórico e pensamento articulado, questione o presente para construir um novo futuro.

Com base nas pesquisas desenvolvidas no âmbito do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e as Relações Sul-Sul (NIEAAS), que você coordena, onde é estudada a atuação da mídia hegemônica, é possível afirmar que a persistência de narrativas baseadas no “choque de civilizações” ainda atua como uma barreira invisível para uma integração Sul-Sul mais profunda no século XXI?

O “choque de civilizações” foi uma teoria proposta pelo cientista político Samuel P. Huntington, segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos seriam a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria. Essa formulação serviu perfeitamente a um projeto dos Estados Unidos e dos seus aliados que foi por eles chamado de “guerra ao terror”. Essa guerra tinha como inimigo preferencial o mundo muçulmano, ou melhor, o Islã, assim, sem definições nem delimitações claras. Ou seja, omitia-se dizer, dentro do conglomerado humano dos seguidores da religião muçulmana, que atualmente superam os 2 bilhões de pessoas, ou 25% da população global, quem era efetivamente o inimigo a ser perseguido.

Além de ser uma construção teórica que serviu a uma estratégia política cujas trágicas consequências foram milhões de mortos e a destruição de vários países (Afeganistão, Iraque, Líbia), o “choque de civilizações” se fundamentava nas diferenças culturais como principais fontes de conflitos. Mas, ao colocar a religião muçulmana como esse “outro” tão diferente culturalmente que só o conflito poderia se esperar na relação com o Ocidente, a teoria partia de um equívoco: a suposta “alteridade absoluta” entre o pensamento muçulmano e o pensamento cristão.

Para mostrar o quanto essa suposição é equivocada e ignora a história, é importante lembrar que Aristóteles foi estudado, traduzido e comentado em Bagdá (e no mundo islâmico em geral) séculos antes de suas obras serem reintroduzidas e estudadas na Europa Ocidental cristã. Durante a “Idade de Ouro” do Islã, especialmente na Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma) fundada no século IX pelos califas em Bagdá, eruditos árabes traduziram a maioria das obras de Aristóteles do grego para o árabe. Aristóteles era conhecido no mundo muçulmano como “O Filósofo” ou “O Primeiro Mestre” e teve profunda influência em pensadores como Al-Kindi, Al-Farabi, Ibn Sina (Avicena), Ibn Rushd (Averróis) muito antes de a Cristandade redescobrir a sua obra. Na Alta Idade Média (após a queda do Império Romano), na parte ocidental do continente europeu, se perdeu o conhecimento do grego e somente algumas obras de Aristóteles foram preservadas. A maior parte do corpus aristotélico só chegou à Europa nos séculos XII e XIII, principalmente através de traduções do árabe para o latim realizadas em Al Andalus, a Península Ibérica muçulmana. Foi esse processo que permitiu a obra de Aristóteles impactar a filosofia escolástica europeia, particularmente pensadores como São Tomás de Aquino.

Ou seja, há na base do pensamento muçulmano e do pensamento cristão influências gregas comuns, de Aristóteles em particular. Isso sem entrar no terreno religioso, estritamente, que não é o meu campo de estudo, mas a respeito do qual posso comentar a importante devoção dos muçulmanos à Virgem Maria, mãe de Jesus. Se a superação dos estereótipos e das deturpações fosse um objetivo real da mídia e de outros atores — as redes sociais, por exemplo — avançaríamos muito na correta compreensão das diferentes tradições culturais e religiosas e, em consequência, no respeito mútuo. Lamentavelmente, salvo exceções, nos defrontamos hoje com a atitude oposta, de exaltação das supostas diferenças, porta de entrada para a discriminação e a violência.

Mas vejo com otimismo nas novas gerações uma atitude aberta ao conhecimento de outras culturas e tradições. As universidades têm um importante papel a desempenhar nesse terreno, através do incentivo aos intercâmbios acadêmicos e à recepção de professores visitantes de diferentes experiências e formações. A ampliação desse intercâmbio é fundamental, em particular com os países latino-americanos e africanos, com os quais o Brasil tem tanto em comum.