Segunda-feira, 16 de setembro de 2019.
Notícias ››   Imprensa on-line ››  

Cientista elogia voto da oposição sobre acordo da Base de Alcântara

publicada em 09 de setembro de 2019
Cientista elogia voto da oposição sobre acordo da Base de Alcântara
https://i21.org.br



Professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-diretor da Agência Espacial Brasileira (AEB), o engenheiro Carlos Gurgel falou ao Portal Vermelho sobre a votação, na Câmara dos Deputados, do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas. Destacou a importância das ressalvas feitas pelos votos em separado dos parlamentares do PCdoB, PDT e PSB e afirmou que o Brasil não pode abrir mão da parceria com a China por conta do acordo relativo ao uso do Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão.

Por Iram Alfaia

Com pós-doutorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela Universidade de Washington (Estados Unidos), o cientista é um dos idealizadores do curso de Engenharia Aeroespacial da UnB. Na entrevista exclusiva ao Vermelho, o professor Gurgel disse que o Brasil avançou com o projeto do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (Cbers). “Evoluímos com a China na área de satélite para sensoriamento remoto. Um já foi lançado e outro está em fase de lançamento”, disse o cientista, referindo-se ao Cbers-4A.

Ele destacou que a aprovação do acordo na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (21), abre brechas para algumas interpretações que podem dificultar o desenvolvimento do programa espacial brasileiro. No entanto, ele considerou oportuno o voto em separado dos deputados da oposição ressaltando que o Brasil deve manter sua “autonomia decisória sobre com quem desejará realizar cooperação na área espacial e por consequência realizar atividades no Centro de Lançamento”.

A votação na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional contou com o voto separado de Perpétua Almeida (PCdoB-AC) e Paulo Ramos (PDT-RJ). E outro do PSB assinado por Camilo Capiberibe (AP) e Bira do Pindaré (MA).

Os dispositivos do acordo proíbem lançamento de Alcântara de mísseis balístico em parceria com países que deram apoio a atos terroristas ou que não são signatários do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR, na sigla em inglês). No primeiro caso, as exigências confrontam com a Constituição brasileira e, no segundo, trata-se de uma medida inócua pelo fato do Brasil já ser signatário do MTCR. O pesquisador considerou que houve um endereçamento à China, uma vez que o país não está na MTCR.

Ele considerou oportuno a deputada Perpétua Almeida ter colocado no voto em separado que o Brasil não será impactado negativamente no seu “programa de satélites desenvolvido conjuntamente com a China, bem como, não aceita restrições que afetem a já positiva parceria com a China em outra área que é a da logística para a internet 5G”.

“Nenhum acordo de salvaguarda poderia limitar. E vou mais além: a parceria com a China deveria ser naturalmente repensada, atualizada, mas nunca extinguida. Nós já sabemos trabalhar com chineses e eles estão se tornando uma potência espacial”, argumentou.

Apesar da parceria com a China estar incerta por causa da mudança de governo, Gurgel diz que o governo deveria olhar para o futuro, pois os chineses possuem programas ambiciosos nessa área. “Os chineses possuem estrutura gigantesca de infraestrutura na área espacial. Eles estão vendo o futuro daqui a 20, 50 e 100 anos, então o Brasil não pode abrir mão dessa parceria”, afirmou.

O professor da UnB defende que o acordo não coloque dificuldades para o Brasil estabelecer parcerias com quem julga importante como a China, Índia e Argentina. No tocante aos portenhos, ele vê com bons olhos uma parceria. “A Argentina está desenvolvendo um veículo lançador. Ela nunca falou nada, mas na parceria pode acelerar o desenvolvimento dela e operar em Alcântara”, defende o cientista para quem há dificuldades daquele país para fazer lançamento em órbitas equatoriais por estar muito ao sul e pouca potência nos foguetes.

Uso dos recursos

Outra medida considerada inócua no acordo é sobre o uso dos recursos financeiros obtidos por intermédio das atividades de lançamento para a aquisição de mísseis balísticos. Ou seja, como signatário do MTCR, o Brasil está fora dessa possibilidade. O dispositivo, segundo o voto, só visa constranger o lado brasileiro.

O pesquisador chamou o dispositivo de paranoia dos EUA ou preocupação em ter que deixar mais um país sob sua vigilância. Citou como exemplo o míssil SS-18 Satan desenvolvido pela Ucrânia. “Apelidado de Satanás, ainda é o míssil intercontinental mais poderoso do mundo. Desenvolvido nos anos 70, ele forma a base central do poder da Rússia ainda hoje”.

Na desativação de parte deles, a Rússia passou a usá-los como lançadores de satélites, inclusive um brasileiro. É que do ponto de vista da tecnologia bastava retirar a ogiva nuclear e substituir por outra carga. A preocupação dos EUA é que o inverso pode ser feito.

Segundo Gurgel, outra questão nesse dispositivo do acordo é que o dinheiro público não é carimbado. “Como os americanos vão seguir os recursos? Eles podem seguir para o caixa do tesouro, dos municípios e do estado. Seria mais fácil se seguissem uma conta na agência espacial”, diz.

Questão fundiária

Carlos Gurgel analisa como um drama a situação dos quilombolas e de outros moradores que vivem próximos a Estação de Alcântara. Considerou justo o voto separado ter destacado a necessidade de titulação das terras e a efetivação de políticas públicas voltadas a melhoria da qualidade de vida da população.

Ele diz que todos que vivem no local estão sujeitos a serem vítimas de acidentes por causa dos equipamentos e o armazenamento de combustível de foguete.

“Nossa preocupação, em primeiro lugar, é preservar a vida deles. Nós também estamos poluindo o ambiente? Vamos causar algum dano? Isso tem que ser uma preocupação constante”, adverte.

O professor da UnB acredita que ao menos num primeiro momento a área da estação não precisar ser ampliada. No seu entendimento, o centro de lançamento não desperta o mesmo interesse internacional que teve há 20 anos. Isso por conta de novas tecnologia que permitem a reutilização de veículos lançadores e o lançamento a partir de plataformas nos mares, o que permite operar da linha equatorial.

No caso de Alcântara, próximo a linha do equador, há disponibilidade de oceano para o Norte e Leste. “Você está bem de frente e de lado para o mar. Isso permite você não fazer seguro para o lançamento, porque todas as peças vão cair no mar”, explicou.

Modelo de negócio

O professor também concordou com uma das conclusões do voto em separado ao afirmar que a exploração comercial do centro de lançamento não é suficiente para garantir o relançamento exitoso do Programa Espacial Brasileiro (PEB).

Ele também concorda que o acordo permite ao país viabilizar negócios com várias nações, uma vez que 80% da tecnologia espacial teria algum componente de fabricação dos EUA.

Porém, defende um maior dinamismo no modelo de negócio a ser gerado. Ele discorda, por exemplo, da existência de apenas uma empresa integrada. “É muito difícil uma empresa ser integradora de satélite e veículos lançadores, porque são duas atividades completamente distintas, a empresa ficaria muito cara”, diz.

O professor defende que a Avibras, empresa brasileira com sede em São José dos Campos (SP) e que atua há 50 anos no setor aeroespacial, cumpriria o papel como integradora na produção de lançadores.

Já na parte dos satélites, o engenheiro diz que a Visiona, uma joint-venture entre a Embraer e a Telebras voltada para a integração de sistemas espaciais, seria a ideal para desenvolver a tecnologia. Defendeu que o país entre no mercado de pequenos satélites que, segundo ele, serão a maioria no futuro.

Antes de elaborar um programa específico para o setor, Carlos Gurgel diz que é preciso mapear as necessidades do país em diversos setores para que o início do processo seja versátil.

“Precisamos mapear também as necessidades de países irmãos na Ásia e África com economia parecida com a nossa. As palavras chaves são versatilidade e eficiência para fazermos modelos de negócios, por exemplo, baseados nas startups, coisas rápidas e enxutas”.
Versão para impressão Envie para um amigo Deixe seu comentário
https://i21.org.br

Envie esta notícia para seus amigos

Seu nome:
Seu e-mail:
Enviar para:
envie para vários e-mails separando-os com vírgula

Deixe seu comentário sobre esta notícia

Seu nome:
Seu e-mail:
Escreva seu comentário:
0 caracteres utilizados. Máximo 100 caracteres.

Digite o código contido na imagem ao lado:
Caso não consiga ler o texto da imagem, clique aqui.

Comentários

Nenhum comentário ainda foi registrado.
Seja o primeiro a comentar! Clique aqui ››

Contato

Telefone
(61) 35418388
(61) 93094422