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Sobram democratas, falta democracia

publicada em 30 de maio de 2019
Sobram democratas, falta democracia

Ayrton Centeno




Tanques do Exército ocupam as ruas do Rio de Janeiro no golpe de 1964, iniciando o mais longo período de exceção do país / Arquivo Nacional


Democracia, esse troço que nos atrapalha. Que nos expõe à pior das gentalhas
O Brasil vive uma situação insólita: possui excesso de democratas mas convive com muito pouca democracia. Democratas saíram às ruas no domingo 26 para, muitos deles, pedirem o fim da democracia com o fechamento do Congresso e do Supremo. Democraticamente.

É preciso admitir, porém, que nem o parlamento nem o judiciário são, por assim dizer, entusiastas da democracia. Ambos assinaram embaixo dos golpes de estado de 1964 e de 2016. Mais delicada ainda a situação do STF. Embora entre suas atribuições conste o papel de “Guardião da Constituição”, num momento e noutro, achou por bem cuidar mais de suas lagostas do que da Carta Magna. Assim, em Pindorama, o amor dos democratas por sua condição convive sem sobressaltos com sua ojeriza à democracia.

Democratas derrubaram um regime democrático em 1964. Atrás dos canhões, militavam na União Democrática Nacional (UDN) e no Partido Social Democrata (PSD). Embora o governo João Goulart fosse democrático, com plenas liberdades e imprensa livre para atacá-lo dia e noite, os mais democratas entre os democratas entenderam que não era bem assim e, para defender a democracia, implantaram uma ditadura. Democrática, é claro, autodenominada “Revolução Democrática de 31 de Março de 1964”.

Tão democrática que o jornal O Globo decidiu saudá-la com a manchete “Ressurge a Democracia”… O jornal da família Marinho entendia que a democracia golpeada era uma ditadura disfarçada. Então, aderiu à democracia disfarçada de ditadura.

Em 1984, ao se deparar com gigantesco comício na Praça da Sé, com a multidão reclamando democracia, a TV Globo não acreditou naquela bizarrice e interpretou aquilo como um parabéns pelo aniversário de São Paulo. Demorou 50 anos a se dar conta do lapso. Algo que se revelou conveniente, uma vez que, ao longo daquele produtivo auto-engano, transformou-se, sem querer querendo, num dos maiores impérios de comunicação do planeta.

Da mesma forma que em 1964, os três principais partidos que urdiram o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff orgulham-se da democracia tanto que a carregam em seus nomes: o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Democratas (DEM).

É democracia de sobra, para ninguém botar defeito. Ou melhor, sempre tem alguém que bota defeito: O DEM, por exemplo, foi parido como Arena e saiu das entranhas da ditadura, mesma genitora do MDB. E o PSDB, por sua vez, nasceu de uma costela – a que supostamente seria menos fisiológica – do MDB.

Tudo parece nos levar, infinitamente, ao mesmo movimento, o de construir uma sociedade de democratas mas sem democracia, esse troço que tanto nos atrapalha. Que nos expõe em shoppings, aeroportos e universidades à pior das gentalhas. Mas um dia a gente chega lá. Enquanto isso não acontece vamos gritar “Intervenção Militar Já!” Democrática, é claro.

Edição: Daniela Stefano
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