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Conversa com Jango Filho (entrevista com João Vicente Goulart)

publicada em 03 de maio de 2018
Conversa com Jango Filho (entrevista com João Vicente Goulart)


América do Sol

ASOL Nº9

Era para ser uma entrevista do tipo formal, em geral uma sabatina do entrevistador ao entrevistado. Mas este entrevistado parece ser dotado de uma virtude de relacionamento pela qual ele sempre se posiciona de igual para igual com o interlocutor, quem quer que seja ele, e faz desaparecer, quase de imediato, toda formalidade ou desnível hierárquico que quase sempre se pré-estabelecem ou possam ser pré-concebidos em primeiros contatos. E a entrevista desaguou para uma boa camaradagem e um ótimo papo entre companheiros de diferentes vivências em uma mesma História. Reflexões complementares e compartilhadas. A bem da matéria, penso eu. Deu gosto fazê-la! Espero que a leitura dê o mesmo ao leitor. (MD)

ASOL – Estamos na Casa dos Jornalistas, em Belo Horizonte, com a ilustre presença de João Vicente Goulart, que hoje prestigia Minas Gerais na qualidade de pré-candidato à Presidência da República pelo PPL – Partido Pátria Livre. Queremos começar, João Vicente, com uma ideia sua que nos fascina, que é o Projeto do Memorial João Goulart. Visitando o site do Instituto João Goulart só encontramos a “justificativa” do projeto, que, para nós, é mais que óbvia. Então, gostaríamos que você nos dissesse mais sobre a proposta de conteúdo, o que se pretende fazer no Memorial depois de concretizado. Podemos dizer que temos muitos companheiros, artistas, intelectuais, profissionais da cultura e da política, interessados em participar e até ajudar no que puderem para o sucesso desta ideia.



JVG – A ideia inicial do projeto partiu de Oscar Niemayer, quando estivemos com ele, lá pelo ano de 2004, e que passou a ser o projeto mãe do então recém fundado Instituto João Goulart – que é uma OSCIP. Estive com Niemeyer muitas vezes discutindo o projeto. O objetivo principal seria o de reverenciar e promover as ideias de liberdade e democracia, através de um marco que nos lembrasse o fato histórico que quebrou a nossa Constituição e a nossa Democracia em 1964, com o golpe de estado. Inicialmente, Niemeyer propôs uma arquitetura de traços retilíneos. Depois, ele nos chamou e disse: – mudei tudo! E nos apresentou então o esboço arquitetônico do atual projeto, no qual ele incluiu uma seta vermelha atingindo a cúpula do edifício onde se lê “1964”.



Eu tenho gravada em vídeo a justificativa dele onde diz que é para que os brasileiros não se olvidem do ano fatídico no qual, pelo servilismo das elites aos interesses norte-americanos, se derrubou o governo João Goulart e seu projeto de reformas democráticas estruturais em favor do desenvolvimento social e econômico do nosso país. Niemeyer nos disse também que este seria o seu último projeto arquitetônico para o eixo monumental de Brasília. Partimos então para a captação de recursos e, com a ajuda do senador Pedro Simon, entramos com o pedido ao governo da capital – na época era o governador Roriz -, que, apesar de ser nosso adversário político, prontamente concordou com a proposta e ele mesmo abriu um processo administrativo na Terracap para a cessão em comodato de um terreno no centro do eixo monumental da cidade para que fosse destinado a construção da obra.



Este processo veio se arrastando através de quatro administrações, onde tivemos de enfrentar diversos obstáculos que consideramos normais a tais casos, até que, depois de sete anos nós obtivemos a almejada cessão de uso, na administração do governador Agnelo. É bom que se diga que, diferentemente do Memorial do Juscelino, cuja família recebeu a escritura do imóvel para construí-lo, no nosso caso de comodato, todo o investimento feito no imóvel passaria a ser propriedade do governo do DF. Isto foi no final do governo Agnelo. Vieram então as eleições e, para nossa surpresa, o primeiro ato do governador eleito Rodrigo Rollemberg foi o de cassar a nossa cessão de uso do imóvel.

ASOL – Com certeza as oligarquias brasileiras que patrocinaram a eleição dele, estão por detrás disto…

JVG – Claro, Rollemberg, apesar de ter sido candidato pelo Partido Socialista Brasileiro, não tem nada de socialista. Eu chego a dizer o seguinte: – ele não é socialista; ele é socialite.

ASOL – Ok, João Vicente, quanto ao projeto do Memorial, do monumento, já temos alguma informação que você agora acrescenta esses dados históricos. Mas, insistimos, e quanto ao conteúdo? Será algo como um centro cultural engajado, de vanguarda?…

JVG – Sim, será um centro cultural e uma ampliação a nível nacional do que começamos em São Borja, com a doação da casa onde nasceu meu pai para o Museu Municipal João Goulart. Mas o projeto de ativação do Memorial, que leva o nome do Presidente João Goulart, não é um projeto de museu, para exibir objetos pessoais, restos mortais, etc. É um projeto interativo destinado a debater e a evoluir sobre as questões da nossa nacionalidade, da nossa soberania, da nossa luta pelo nacionalismo brasileiro, a questão da Reforma Agrária, as nossas manifestações culturais… Inclusive o projeto previa que um terço do ano fosse programado pela Secretaria de Cultura do DF. Nós chegamos a formar um grupo de trabalho no Rio de Janeiro, com o pessoal que criou o Museu do Futebol, para promover a interação do Memorial com o público interessado, promover exposições de arte, de esculturas, etc. Havia até quem nos dissesse: – João, é muito mais difícil tu manter vivo o espaço do que construi-lo…

ASOL – Pelo que podemos ver no projeto é um espaço bem grande…

JVG – Sim, são 1.400 metros quadrados de área coberta. Dá para abrigar grandes eventos, shows de música, espetáculos…

ASOL – E há também alguma documentação? A família conseguiu conservar um acervo?

JVG – No nosso caso, tivemos que partir para o resgate de muitas coisas importantes para criarmos um acervo. É bom que a gente fale o seguinte: o governo João Goulart talvez seja o único, ou um dos poucos, que não pode preparar a sua saída. Então os documentos ficaram a mercê dos golpistas. E muitos foram subtraídos, destruídos e até maquiados. A ditadura durante muito tempo tentou o isolamento histórico daquele período, principalmente do governo Goulart. Nós estamos buscando em arquivos, pedimos habeas data, conseguimos um bom levantamento de parte dos documentos que já foram liberados pelos serviços de informação – CIEX, CENIMAR, DOPS, etc. Tudo isto pretendemos processar e, além de conservar os documentos no anexo do Memorial, que integra o projeto, pretendemos colocá-los disponíveis por internet aos pesquisadores e estudiosos.

ASOL – Teríamos, então, também o Memorial virtual…

JVG – Sim, claro. Além disso, neste prédio anexo nós pretendemos oferecer cursos e seminários para a formação política da sociedade. No Brasil estamos muito carentes de instituições dedicadas aos temas relevantes da cultura, da política e especialmente da História dos acontecimentos de 1964.

ASOL – A família mantém algum acervo iconográfico – fotografias, álbuns de recortes, filmes, etc.? O seu livro publica um bom material iconográfico.


Foto: Arquivo Público / Agência Brasil

JVG – Muito daquele material foi conseguido nessas buscas que mencionei. Algumas fotos, incluindo uma que foi feita numa comemoração de aniversário do meu pai, foram obtidas pelos tais “agentes secretos”. (ao lado, Jango marcado com o nº 3) Nós não sabemos quem são esses agentes, quando há referências elas falam de “agente B”, agente “não sei o quê”, coisas do tipo. Desse tal “agente B” temos documentos dizendo coisas como: “ontem estivemos na residência do ex-presidente Goulart de onde subtraímos da gaveta do criado mudo do seu quarto cartas de Peron e de Ulisses Guimarães.” Ou seja, quem assume por escrito que entrou sorrateiramente no quarto do ex-presidente poderia ter feito ali qualquer coisa, inclusive sabotar ou substituir um medicamento, não? Daí a nossa luta para o esclarecimento de muitos fatos obscuros, entre eles a própria morte de João Goulart.

ASOL – E o Memorial está incluído nesta luta.

JVG – Sim, inclusive estamos movendo ações judiciais de perdas e danos morais e materiais causados pelo ato absurdo desse governadorzinho do Distrito Federal.

ASOL – É possível reaver o espaço?

JVG – Não, é difícil, porque o direito administrativo é dele, do governador, e ele poderia valer-se dele unilateralmente. Mas ele cometeu erros. Ele foi tão covarde que não teve peito de assinar a portaria; ele mandou o Secretário da Cultura anular a cessão de uso por ato de ofício. Isto nos permitiu o recurso de pedir ao governador a confirmação do ato de seu subalterno, pois assim o exige o direito administrativo. E ele teria um prazo de 90 dias para isto, mas foi tão canalha que demorou um ano e meio sem fazer nada até que perdêssemos tudo que havíamos conseguido via Lei Rouanet, via patrocínios e outros apoios.

ASOL – A quais interesses você acha que ele estava atendendo com aquela canalhice?

JVG – No começo, foi criada aquela história de que os militares não estavam de acordo com a construção do Memorial, principalmente, por causa da chamada a 1964 que eles consideravam uma provocação. Eu estive na época com o Celso Amorin, que era o Ministro da Defesa, e ele me disse que no início até houve a inquietação de alguns setores, mas que logo foi tudo superado sem maiores problemas. O que houve realmente foi o interesse de grandes empresários imobiliários de Brasília, que mandam no governo.

ASOL – Não teria havido também alguma mexida de interesses externos, imperialistas?

JVG – Eu acho que não. O que houve mesmo foi aquela elite “branca” de Brasília, de empresários e oligarcas que ainda temem o Jango.

ASOL – O fantasma de Jango ainda paira…

JVG – Claro, e não só em Brasília. Há anos minha irmã vem tentando criar um espaço de cultura como o nome de João Goulart no Rio de Janeiro e até hoje não consegue. E olha que no Rio tem muitos espaços das administrações publicas inteiramente vazios e até abandonados – literalmente entregues às baratas – que poderiam abrigar a iniciativa dela. Mas como o nome de Jango, não.

ASOL – Em 1964 eu tinha 14 anos, mas naquela época a formação que recebíamos nos preparava muito bem para conhecer e amar a nossa Pátria. Lembro-me que, desde a renúncia de Jânio, a política fervilhava em nossa juventude e o governo Jango era um governo que atraía a nossa juventude. Os CPCs, o movimento estudantil, os debates políticos… Era uma permanente agitação cultural e política em que nos engajávamos com muita alegria e muita vontade de construir um grande país…

JVG – Foi uma época de ebulição cultural… eu sempre falo isto…

ASOL – E o seu livro nos dá uma visão de Jango que, para mim, foi muito importante. Ele mostra o lado do homem comum, do fazendeiro trabalhador, empreendedor e pai de família brasileira. Em geral, conhecemos os políticos pela imagem que produzem através dos meios de comunicação. Na minha experiência jornalística, tive a oportunidade de conviver com muitos deles fora do plano midiático, o lado pessoal, a família e intimidade de seus lares. E pude constatar que os bons e verdadeiros líderes são os que não são hipócritas, isto é, como no caso de Jango, são os mesmos onde quer que estejam, seja no recolhimento de suas vidas pessoais, seja diante das câmeras e holofotes da imprensa… E o seu livro mostra isto muito bem.



JVC – Interessante esta colocação, porque é uma colocação bem realista e que define bem o que era Jango, um homem muito hábil, principalmente no setor primário, onde ele foi criado e desde criança manifestou esta vocação. Era um homem do campo, não conheci uma pessoa que sabia tanto de pecuária…

ASOL – E o Brasil perdeu a oportunidade de ouro de ter um homem como ele no comando da Reforma Agrária de que tanto necessitávamos como a necessitamos até hoje.

JVC – Nós não desistimos dessa luta.

ASOL – Nós, do América do Sol, que reúne intelectuais e artistas que, como você, lutam com o propósito de recuperar o fio da História rompido em 64, vemos a sua candidatura como uma candidatura que pode ser bastante didática para a consciência do povo brasileiro e que pode até surpreender.

JVC – Nós estamos aí, numa missão partidária: é uma honra para qualquer brasileiro poder levar a mensagem da História nacionalista. Sabemos das dificuldades que o Pátria Livre tem, em especial neste contexto em que o Congresso acaba de criar uma lei que penaliza os pequenos partidos como o Pátria Livre, que é um partido ideológico, que tem uma disposição de luta e uma bela história de batalhas nacionalistas. E não tem rabo preso.

ASOL – Exatamente, e agora estão puxando o rabo do Lula…

JVG – Pois é! Sabemos que estamos numa luta de Davi contra Golias. Às vezes o Golias cai…

ASOL – Creio que temos de ser criativos. Apesar das dificuldades, o Pátria Livre pode nos oferecer algo muito importante que outros partidos não têm: a bandeira sem manchas da luta patriótica. Veja, em 2022 teremos vários centenários para comemorar: a começar do bicentenário da Independência, teremos o centenário da criação do Partido Comunista, o centenário dos 18 do Forte, o centenário da Semana de 22… E, como dizia o nosso Câmara Cascudo: o melhor produto feito no Brasil continua sendo o brasileiro.

JVC – O Darcy Ribeiro tinha muito dessa visão cultural, visão de povo, da miscigenação. Ele queria construir uma cultura eminentemente nacional com as raízes e as grandezas brasileiras, com o índio, com o negro, a Amazônia… Eu acho que ele tinha uma leitura muito importante, era um visionário. E previu muitas coisas, não? Veja a questão da educação, pela qual, ele e o Brizola, tanto lutaram: agora estamos vendo o Temer liberando 45 bilhões para construir presídios!? E o Darcy, bem lá atrás, já dizia que se não fizéssemos escolas iríamos fazer presídios. Nós tínhamos grandes personalidades no passado, tanto na cultura como na educação. Tínhamos o Paulo Freire, o Anísio Teixeira… São figuras que movimentaram o Brasil de uma forma diferente e muito importante. A gente costuma dizer que o governo Jango não era um projeto de governo, era um projeto de nação. Com participação popular intensa, se debatia a política nas esquinas, nas fábricas, nos teatros, nos DCEs, quer dizer, havia uma ebulição de propostas novas para o país, de desenvolvimento social, político, intelectual, enfim, cultural. Eu creio que perdemos muito disso tudo que possuíamos. Mas a luta continua, não podemos esmorecer.

ASOL – Agora, você está aqui em Minas, que eu considero o fulcro desse nosso grande problema de pátria. O Trabalhismo aqui sempre teve uma rejeição feroz das nossas oligarquias e burguesia.

JVC – Mas Jango ganhou do Milton Campos aqui em Minas…

ASOL – Sim, outra coisa é o povo de Minas, o povo de Tiradentes. A proposta do América do Sol é recuperar o fio desta História.

JVC – E romper as barreiras desses antagonismos direita-esquerda, e até mesmo entre as esquerdas…

ASOL – Aí você tocou um ponto importante: a divisão das chamadas “esquerdas”. Estas aqui em Minas sempre tiveram uma desconfiança com os gaúchos. Tudo começa com a quebra da política do café com leite e a entronização de Getúlio, que é obra de mineiros e gaúchos. Eu tenho uma tese em que defendo o fato de os gaúchos, por estarem nas fronteiras com Uruguai e Argentina, terem vivido uma cultura mais libertária, muito influenciada pelos libertadores bolivarianos como San Martin e Artigas. Tanto é que foi de lá que se lançou a Coluna Prestes, foi de lá que Getúlio embarcou na caravana da Revolução de 30… E Jango, Brizola, etc. Mas essas ideias libertárias em Minas têm um problema sério: as elites e os militares daqui ainda estão no papel dos que enforcaram e esquartejaram Tiradentes, essa é a verdade! Digo isto porque eu levo uma eterna discussão com os intelectuais daqui a respeito dos papéis libertários de Juscelino e Tancredo, ambos são crias de Getúlio e talvez, por isto, execrados pela nossa intelectualidade burguesa e udenista. No caso de Tancredo, dizem que tentou evitar a posse de Jango. Eu acho o contrário; se não fosse a estratégia tancredista do parlamentarismo Jango jamais teria tomado posse, os militares daqui de modo algum o permitiriam. Ora, o golpe de 64 é essencialmente obra das elites e militares mineiros…

JVC – Nós temos informações já confirmadas de que havia o plano de assassinar Jango aqui em Minas. O primeiro comício das reformas de Jango foi no dia 13 de março, na Candelária, no Rio de Janeiro. Mas o segundo seria aqui em Minas Gerais no dia 24 de abril. Já temos informações comprovadas de que, se este comício tivesse ocorrido, Jango seria assassinado pelos militares daqui. Havia até um franco atirador, um coronel, o tal de Cascavel, que fora designado para eliminar Jango caso falhassem as metralhadoras que iriam abatê-lo. Mas eu acho que hoje há um grande interesse na retomada desse fio da História, como tu dissestes. Jango enfrentou desafios muito poderosos: enfrentou as multinacionais com o decreto de outorga do monopólio de extração e refino de petróleo para a Petrobrás e com a lei de remessa de lucros. O projeto de reforma agrária batia de frente com os interesses dos terra-tenentes. Mas era uma reforma agrária que tinha de ser feita naquele momento. Continua a ser necessária, mas hoje será muito mais difícil. Naquela época nos tínhamos 75% da população brasileira, que era em torno de 68 milhões, vivendo no campo. Hoje, esta porcentagem se inverteu e as nossas cidades sofrem o problema da violência urbana enquanto as áreas rurais foram entregues a uns poucos empresários do agronegócio, que mantém uma bancada poderosa no Congresso. Então temos pela frente estes mesmos enfrentamentos e agravados. Mas a reforma agrária de Jango, que foi acusado de comunista só por torná-la um programa de governo, era muito semelhante a que foi feita nos Estados Unidos no século 19. Quer dizer, dar título de propriedade era coisa de comunista!?

ASOL – Sim, qualquer projeto que tratasse de distribuir renda ou terras, ainda que fossem totalmente improdutivas, era tido pelas elites nacionais como coisa de comunista. E a imprensa fez um papel muito feio nesta história. A imprensa poderia ter evitado toda essa desinformação, mas fez o oposto: colaborou com ela. As reformas que Jango propunha eram antes de tudo desenvolvimentistas e muito boas para o país. Até hoje podemos considerá-las como propostas de vanguarda. O América do Sol, por exemplo, é apoiado por um CPC – Centro Popular de Cultura – que é uma das criações vanguardistas do governo João Goulart. Conclusão: houve um grande retrocesso histórico, inclusive cultural. O que temos hoje está muito aquém do que o que tínhamos então. E o que nós estamos precisando agora é de retomar aquele processo; um processo de propostas concretas e necessárias ao nosso desenvolvimento. Neste ponto, eu penso que a sua candidatura pode ter um valor enorme para o povo brasileiro.



JVC – Tomara que nós possamos unir esse pensamento nacionalista. Porque, realmente, quando a gente coloca propostas que foram feitas lá atrás, há mais de 50 anos, resulta que são completamente desconhecidas, até por muitos jornalistas. É o caso, por exemplo, da reforma tributária, a que estava sendo discutida na época; é uma reforma que ainda devemos e que podemos debater e realizar. Vamos taxar o patrimônio dos proprietários e não o holerite dos trabalhadores. É o que fizeram e fazem os países que se desenvolveram, porque é um imposto justo e essencial para o desenvolvimento de qualquer país. E temos que retomar o pensamento nacionalista daquela época. A questão do subsolo, da Amazônia, das empresas estratégicas. Muita gente não sabe que a ditadura teve de cassar mais de quatro mil militares nacionalistas para se viabilizar (nota do ASOL: o editor do HP, Carlos Lopes, tem informação documentada de que foram mais de 7.500 os militares cassados, incluindo-se muitos generais e altos oficiais). O problema foi que de fato haveria um derramamento de sangue: a Quarta Frota Norte Americana estava de prontidão em nossas costas para invadir o país em caso de resistência armada ao golpe. Mas hoje eu creio que temos condições de retomar tudo isto, garantir para o país o nosso subsolo, recuperar as empresas estratégicas, enfim, fazer o que tem de ser feito. O Brasil tem de retomar o desenvolvimento visando o mercado interno, visando a pequena e média indústria nacional, em primeiro lugar. Então, se a gente conseguir ao menos colocar em pauta essa proposta… É claro, não vai ser fácil, vamos enfrentar dificuldades; nós não temos fundos financeiros, não temos acesso à imprensa. Mas eu acredito que uma proposta como a nossa, que é de amplo apelo social, pode conquistar um grande interesse público e então poderemos ser ouvidos nessa caminhada.



ASOL – Eu me lembro, João Vicente, que o seu discurso de ingresso ao PPL – eu estava lá, na Assembleia de São Paulo naquele dia – continha tudo isto. Era praticamente um programa de governo. Um programa, que, para mim, deveria estar na pauta de todo candidato que se propõe a um cargo executivo neste país. Mas não é o que aconteceu nestes últimos anos, nem o que acontece com os demais candidatos, incluindo o PT que se autodenomina um partido dos trabalhadores. Em 1979 eu militava na resistência à ditadura militar quando conquistamos a Lei de Anistia. Esperávamos o retorno de nossos líderes no exílio e víamos em Brizola o presidente que retomaria o fio da História rompido em 64. Na época todas as pesquisas indicavam que teríamos cerca de 70% dos votos em qualquer eleição limpa em qualquer nível, municipal, federal e estadual em quase todo o país. De repente, em 1979/80, surge um tal de Lula sendo apresentado pela mídia nacional e mundial como o líder sindical que enfrentava a ditadura num comício em São Bernardo com direito a show de helicópteros do exército e a prisão escandalosa com total cobertura da imprensa. Nós que há quase duas décadas buscávamos a organização e o fortalecimento da classe operária brasileira, debaixo de ferro e fogo, sendo perseguidos, torturados e muitos de nós assassinados pela repressão, nunca tínhamos ouvido falar nesse indivíduo. Ele se apresentava como um trabalhador, mas era um trabalhador que não falava de Getúlio, não falava de Brizola, não falava de Jango… Dizia que era torneiro mecânico, mas nunca mostrou sua carteira de trabalho. O fato é que o surgimento dele e do PT, fartamente financiado e apoiado pela imprensa, destruiu a unidade da resistência, a começar pela perda da sigla do PTB pelo nosso trabalhismo histórico. Darcy Ribeiro denunciava aquela impostura dizendo que “era a esquerda de que a direita gosta”. Brizola chamou o PT de “UDN de macacão”. Mas a hegemonia da mídia em favor de Lula como “o novo líder das oposições” não permitiu que fossem ouvidos. E até hoje não recuperamos uma união efetivamente de esquerda, nacionalista e revolucionária.

JVC – É verdade, esse convívio deles com os grandes grupos econômicos numa espécie de negócio em que “você me deixa fazer isto e eu te deixo fazer aquilo”… Isto nos levou a essa situação em que hoje vivemos. Eu costumo dizer que antes, mesmo num sistema capitalista, havia uma concorrência entre esses grupos. Tínhamos 15 a 20 bancos de âmbito nacional que disputavam uma clientela. Os empresários podiam optar por qual deles melhor os atenderia em seus empreendimentos. Hoje, mais de 80% dos ativos nacionais se encontram nas mãos de quatro bancos. Eles falam muito de “livre iniciativa”, mas não falam dos monopólios. E fica quase impossível qualquer tipo de negociação. Não digo que seja o caso de nacionalizarmos os bancos, mas temos de flexibilizar as patentes bancárias. Nos Estados Unidos existem milhares de bancos, inclusive bancos municipais com uma só agência. Por que aqui temos que aceitar um monopólio de bancos privados? Então, se temos de trabalhar dentro das regras que eles chamam de “livre mercado” temos de fazer propostas que não admitam monopólios privados. Se formos entregar tudo para a tal gestão privada, a geração e a distribuição de energia, as minas, o petróleo, não teremos saída. Pois a tal competência da gestão privada é muito questionável; a gestão privada foi a que nos levou ao desastre de Mariana.

ASOL – Começamos o nosso jornal denunciando “A Infernização do Paraíso”, a partir de um poema de Rodrigo Leste, um poeta daqui. E foi antes desse desastre.

JVC – Há quem diga que não foi um desastre; foi um crime.

ASOL – Meu filho, Leo Drumond, que é fotógrafo jornalista estava lá naquele dia e por pouco não foi pego por aquele tsunami de lama. Eu digo que se ele não estivesse lá com a capacidade que tinha para alertar a mídia, aquilo poderia ser até encoberto. E, depois, nós ficamos sabendo que já havia ocorrido outros desastres semelhantes, inclusive um de quase igual porte, que foram silenciados e encobertos pela mídia.

JVC – Da mesma empresa?

ASOL – Não, no caso de Conceição do Mato Dentro foi a Anglo, que inclusive perdeu a concessão de mineração em Serro do Frio, cidade vizinha, por causa disso.

JVC – Mario, eu sempre me assusto com esse entreguismo tão rápido, tão voraz. Veja agora a Eletrobrás, que é um patrimônio nacional da maior grandeza, sendo colocada à venda por seis bilhões, dinheiro que não paga nem os custos de uma usina!

ASOL – A Embraer…

JVC – Sim, a Embraer. É uma entrega total. Vamos ver se a gente consegue, nessa caminhada, pelo menos mostrar que existe outro caminho.

ASOL – E em que ponto estamos neste caminho?

JVC – Estamos começando. Como dizia o camarada Mao, para fazer uma caminhada temos de dar o primeiro passo. Nós estamos esperando a posição oficial do Partido, que trabalha na escolha dos pré-candidatos, para, no caso de a decisão ser pela nossa candidatura, dar esse primeiro passo. Se for este o caso, eu recebo a decisão do Partido como uma missão a cumprir. Ser um candidato de um partido como o Pátria Livre seria uma honra para nós, como, de resto, para qualquer brasileiro. Vamos erguer as bandeiras das propostas nacionalistas, que estão na História, mas que a ditadura afastou da consciência do nosso povo, excluindo-as dos livros de História, da formação das nossas crianças e jovens; eu sempre digo que o pior da ditadura – à parte a perseguição política, as torturas, a censura, a repressão e morte que causou aos nossos companheiros -, foi o obscurantismo, essa nuvem negra que colocaram sobre o pensar político e histórico de duas ou mais gerações de brasileiros…

ASOL – Roubaram o nosso futuro…

JVC – Sim, e nós temos de reconstruí-lo. Este é o grande desafio. Um desafio que havemos de enfrentar com muito orgulho, muita honra, dignidade e, também, serenidade.

ASOL – É uma bela luta. Dizia Machado de Assis que “Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.”

JVC – Lutar, lutar e lutar.

ASOL – Exatamente, esta é a grande lição que tivemos de nossos mais conspícuos líderes históricos, principalmente os que se fizeram líderes fiéis ao legado de Getúlio. Eu tenho trabalhado numa tese, nestes últimos tempos, na qual coloco Getúlio como fundador da República do Brasil. Veja: o que tivemos depois da nossa autointitulada “independência”, a de 7 de setembro de 1822?

JVC – No Uruguai eu ouvia muito isso em um certo tom de deboche. Eles diziam: vocês tiveram a de vocês “no grito” de um colonizador português; a nossa conquistamos na luta feroz contra o império espanhol.

ASOL – Pois é, tivemos uma monarquia, por sinal a única que existiu nas três Américas, seguida de uma quartelada para chegar no café-com-leite das oligarquias e terra-tenentes. Foi só em 1930, sob a liderança de Getúlio Vargas, que o povo brasileiro começa a protagonizar o papel fundamental de sujeito histórico de uma verdadeira República, esta que foi golpeada em 1964; a mesma que queremos recuperar para o nosso futuro. Portanto, eu penso que não é possível entender o Brasil republicano, americano e democrático sem entender o papel histórico da liderança de Getúlio e das realizações e conquistas do nosso povo dentro dela.

JVC – É verdade.

ASOL – No caso dos demais países da América do Sul, todos de língua espanhola, isto ocorreu mais de um século antes, sob a liderança de Bolívar e seus seguidores, daí também não ser possível entender a Venezuela de hoje, por exemplo, sem entender a saga libertária de Bolívar. Mas o que ocorre entre os nossos países é uma desinformação muito grande sobre tudo isto. Aqui no Brasil não temos sequer um único texto de Bolívar traduzido em nossos livros de História, e mesmo no mercado editorial da língua portuguesa é insignificante, senão nula, a presença da obra dele – uma obra gigantesca, valiosíssima e válida ainda hoje em sua totalidade – de doutrina revolucionária aplicada à realidade sul-americana, anti-imperialista e proto marxista, pois já contemplava uma sociedade democrática sem classes. Do mesmo modo, fora do Brasil, nenhum dos nossos vizinhos tem boa informação sobre Getúlio e menos ainda sobre os seguidores da obra dele. Lula e o PT davam a entender durante os 13 anos que ocuparam o poder, inclusive em reuniões de cúpula no exterior, que a democracia brasileira tinha começado com eles, com o primeiro mandato de Lula. E a imprensa hegemônica, nacional e internacional, claro, amplifica enormemente todos esses equívocos, pois tal desinformação só favorece os poderes imperiais que nos acossam.

JVC – O Brasil sempre por último; fomos os últimos a libertar os escravos… E fomos um dos que mais importamos escravos. Eu estudei no Uruguai e pude saber que lá as lutas republicanas começaram muito antes. Bolívar na Venezuela em 1810, San Martin na Argentina e Artigas no Uruguai em 1825. E a redação das primeiras constituições republicanas e democráticas em nossa América naquelas primeiras décadas do século 19. Tivemos grandes líderes na América Latina que lutaram e até deram suas vidas pela emancipação de seus povos.

ASOL – Inclusive o nosso Tiradentes, talvez o percussor deles todos, mas que nos foi arrancado pela raiz e com requintes de brutalidade imperialista. Foi Getúlio que recuperou para os brasileiros a grandeza e a importância de um Tiradentes que se encontrava vivo, mas adormecido no coração do nosso povo, não nos esqueçamos disto.

JVC – A nossa luta tem de começar por recuperar essa consciência pois é essa consciência que nos levará à nossa libertação, não tenho dúvidas sobre isto.

ASOL – Com certeza, e talvez esta é a parte mais dura e difícil desta luta. Não temos bom preparo nem bom cuidado com a saúde da nossa consciência. Veja o que se vem dando na nossa intelectualidade. Nos tornamos militantes do teclado (de computador) e como agora podemos publicar indiscriminadamente tudo o que pensamos na internet temos relaxado no que é fundamental ao pensamento crítico e dialético: a autocrítica. E no momento em que mais precisamos de nos unir nós nos fragmentamos em um festival de egos em forma de publicações apressadas sobre assuntos da moda impostos pela máquina midiática. Ou seja, fazemos o jogo deles (dos inimigos). Getúlio, por exemplo, e a sequência de governos que o seguiram até o golpe, e que são os melhores momentos da nossa república, deveriam estar no centro das nossas atividades para informar o povo brasileiro. E quando alguns tocam, mesmo que superficialmente o tema por essas análises apressadas, o que fazem é gerar confusão. O povo mineiro, posso afirmar, é totalmente avesso a algumas investidas contra as figuras de Juscelino e de Tancredo que volta e meia aparecem chanceladas por petistas e esquerdistas. O uruguaio Vivian Trias, que foi o mestre de Eduardo Galeano e que eu considero como um dos melhores historiadores da América Latina, defende o governo Juscelino.

JVC – E que desde o início de seu mandato esteve assediado por tentativas de golpe e pressões internacionais contra seus projetos nacionais desenvolvimentistas. O que precisamos acabar é com essas divisões tipo esquerda-direita e buscarmos uma verdadeira união nacional em torno de um projeto de nação, aquele que tivemos de abandonar no passado e que agora temos de retomar e atualizar com toda a força que temos.

ASOL – É neste ponto que eu vejo o potencial da sua candidatura e, repito, as possibilidades didáticas dela para a informação do povo brasileiro.

JVC – E quem sabe o Golias não cai? Nós estamos muito esperançosos de sermos capazes de levar esta mensagem. Será um esforço hercúleo, mas que vamos encarar. E pode estar certo de uma coisa: não vamos bater continência para a bandeira norte-americana.

Por Mario Drumond
Em Belo Horizonte, 3 de março de 2018.
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