Terça-feira, 07 de setembro de 2010.
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O Golpe

Jornais norte-americanos publicam entrevistas contra presidente brasileiro. Ele reage e ameaça com o "Sítio". Pressionado, recua.
Em meio a um tenso momento político e oposição aberta ao governo Goulart, Carlos Lacerda concordou com a sugestão de Alfredo C. Machado, seu intermediário junto aos correspondentes estrangeiros em setembro de 1963, permitindo que o correspondente do jornal Los Angeles Times viesse ao Rio para entrevistá-lo. O cenário político era marcado por incertezas. O jornalista Julian Hart gravou em 26 de setembro entrevistas com Lacerda, divididas em dois artigos e publicados no Los Angeles Times, domingo e segunda, 29 e 30 de setembro de 63. No domingo, lembra seu biógrafo oficial, John W.F. Dulles, Lacerda dizia que não estaria dizendo nada para consumo interno, mas estava se dirigindo especificamente para o povo dos Estados Unidos, de onde dizia ter recebido mais de mil cartas nos últimos dias.

Apesar das dificuldades, Jango mantinha relações cordiais com alguns militares.
Os artigos e matérias com títulos destacados na base de que “governador prevê a queda de Goulart e aconselha a negar financiamento de ajuda”, acabaram sendo publicados também, em partes, pelos jornais brasileiros e alcançando grande repercussão. Os artigos e entrevistas nas quais Lacerda aconselhava os EUA a negar financiamento de ajuda também foram divulgados pela agência Associated Press e publicados pela imprensa nacional. A entrevista era dura e Lacerda acusava o governo brasileiro, dizendo “que estava em mãos de comunistas, resolvidos a parar o país, parar o transporte e tornar difícil o trabalho, degenerando toda a economia e espírito público. E o maldito negócio é feito todo de cima para baixo.”
Para Lacerda não era hora para reforma agrária. E argumentava: “A reforma política e social tem que vir primeiro juntamente com a educação dos camponeses. Constatou-se que o trabalhador agrícola brasileiro não está sequer preparado - já não digo para ser proprietário de terra, mas até mesmo para usá-la adequadamente.” Recomendando que os EUA não dessem mais ajuda ao Brasil, advertiu que, naquela situação, tal ajuda nada conseguiria e seria o mesmo que “vender rosas numa taverna de ópio, ou tranquilizantes a quem já está totalmente descontrolado.”
E insistia: “ Não intervir é uma coisa, mas outra é ignorar o que está se passando.” E aumentando o tom dizia que o Departamento de Estado precisava aprender “depois de todos esses anos”, pois não era um assunto indiferente saber quem estava governando o Brasil. Referindo-se aos militares observou que estes estavam debatendo “se é melhor tutelá-lo (Goulart), patrociná-lo, pô-lo sob controle ou alijá-lo imediatamente.” E numa referência à possível deposição dizia ainda “não crer que esse estado de coisas possa subsistir o fim do ano.”

Lacerda provocou clima de crise com suas entrevistas, mas reagiu contra a tentativa de implementar o "Estado de Sítio"
Reação militar
Os três ministros militares de Jango consideraram a entrevista impatriótica e até mesmo um convite aos EUA para interferir em assuntos brasileiros. Emitiram uma nota conjunta na qual louvavam o espírito público e clarividência de Goulart e condenavam as minorias extremistas de direita e esquerda. Especialmente condenavam o governador Carlos Lacerda: “O mau cidadão que estava utilizando técnicas conspiratórias que aprendera, quando líder da juventude comunista.” Lacerda era, assim, acusado de apresentar o país como um republiqueta sub-colonial, exatamente no momento em que o ministro da Fazenda, Carvalho Pinto estava partindo para negociações financeiras em Washington. O próprio governador paulista, Adhemar de Barros, percorria São Paulo também culpando o governo federal pela desordem que destruía a economia do país.
Repercussão
A nota dos ministros militares foi aplaudida pela CGT e a reação contra Lacerda veio também de um grupo parlamentar na Assembleia do Rio. No Congresso, o líder do PTB, Bocaiuva Cunha, dizia tratar-se de uma trama internacional. Goulart promoveu, dias após, uma reunião com os ministros militares e outras autoridades para passar em revista a situação, detendo-se também na atividade do governador paulista Adhemar de Barros que usava uma forte linguagem crítica. Era a hora da reação...
Estado de Sítio

Jango tentou implementar as reformas, a começar pela adoção da administrativa.
Diante da situação criada, Goulart reuniu seus principais auxiliares, ministros mais próximos, especialmente os militares, e adotou uma decisão: o governo, com apoio dos seus interlocutores, decidia pedir ao Congresso a decretação do Estado de Sitio. As Centrais Sindicais foram informadas que se tratava de uma medida visando especialmente os governadores do Rio e São Paulo. E o governador Brizola, no início, concordou. A mensagem foi enviada e falou-se entre as lideranças governistas que haveria especialmente uma ação visando Lacerda. E as bases parlamentares governistas logo concordaram.
Na ofensiva
O pedido foi entregue ao Congresso às 8h15 min de uma sexta-feira, 4 de outubro de 1963. Ao mesmo tempo uma ação de tropas visando prender o governador Lacerda chegou a ser autorizada, mas fracassou. A decisão transpirou e Lacerda suspendeu um programa de visitas, durante o qual seria preso. Retornou ao Palácio e armou-se, esperando o ataque que não houve. Ele tinha sido avisado horas antes pelo Secretário de Segurança, Gustavo Borges, que recebera a informação do chefe do DOPS, Cecil Borer.
E o desgaste fatal
Ao pedir ao Congresso o Estado de Sítio, Jango apresentou junto, documentos do ministro da Justiça e dos três ministros militares. Segundo eles as greves se sucediam e serviriam de pretexto para a conspiração política. Jango pediu aos Sindicatos, especialmente aos lideres da CGT que lhe fosse dado apoio. Mas aí surgiu um outro problema inesperado: o temor de algumas lideranças sindicais, de que a medida fosse usada para barrar as constantes greves, por sinal, mencionadas nas mensagem dos ministros militares. Começavam as dificuldades inesperadas ( e internas). Na realidade vários setores, do próprio governo, começaram a temer a implantação do Sítio.
A CGT logo se preocupou. E alguns governadores também se posicionaram contra. Entre eles Miguel Arraes e Magalhães Pinto. Outras manifestações começaram a surgir, entre elas as de Luiz Carlos Prestes, San Thiago Dantas, Lomanto Junior, Sobral Pinto, Augusto Frederico Schmidt. E o mesmo ocorreu com a mídia. Manifestações inesperadas, de aliados, começaram a surgir inclusive do governador Leonel Brizola, da Frente Parlamentar Nacionalista, UNE etc E afinal no domingo 6 de outubro, o próprio líder do PTB, Bocaiúva Cunha acabou se opondo à medida, diante dos temores de seus desdobramentos.... O que viria depois?
Recuo

No comício da Central, Jango, ao lado da esposa Maria Tereza, faz discurso que gerou imediata repercussão política e militar.
Foi assim que, premido pelas desconfianças na própria base, no dia 7 de outubro, Jango comunicava ao Congresso que “novas circunstâncias” tornavam desnecessária a medida, retirando-a. E um dado importante, que teria desdobramentos, acabou logo surgindo: a Frente de Mobilização Popular exigiu que o Presidente se comprometesse em adotar reformas radicais para reconquistar a confiança abalada. Goulart concordou em se concentrar nas reformas, especialmente numa reforma agrária, além de uma reforma bancária que evitasse sucessivas greves bancárias e que “melhor distribuísse o crédito e não de acordo com os interesses particulares egoístas.”
Todas essas promessas às suas bases políticas e sociais acabaram levando-o à adoção de medidas de impacto, anunciadas no comício da Central, no dia 13 de março de 1964.
Por Carlos Fehlberg


Jango enfrenta pressões, vai a Tancredo e pergunta: “o que devo fazer”. O diálogo foi mantido uma semana antes do 31 de março.
O agravamento da crise político-militar em 1964 levou Jango a uma conversa sobre o cenário político com ex-primeiro ministro Tancredo Neves em quem confiava. No dia vinte e cinco de março de 1964, quase meia-noite, Tancredo conversava com João Pinheiro Neto (da Supra), quando recebeu um telefonema de Jango dizendo que precisava falar com ele e estava indo ao seu encontro. O momento já era de tensão nos meios políticos e militares. Logo após o telefonema, Jango chegava para a conversa solicitada, mostrando grande preocupação. E foi logo manifestando, lembra Pinheiro Neto, o desejo urgente de falar com Tancredo e Antônio Balbino, que não estava, mas concordou em que ele permanecesse. E desabafou: “Meus amigos estou vivendo a hora mais grave do meu governo. Duas rebeliões militares, os sargentos em Brasília e os marinheiros aqui no Rio. E já está marcada uma reunião de solidariedade de sargentos ao Presidente da República a ter lugar no Automóvel Clube! Quis conversar com você Tancredo e também com o Balbino, pessoas inteligentes. Além do mais vocês não estão “marcados” politicamente, são até tidos como conservadores. Com penetração nas áreas empresarial e militar.”

Tancredo foi objetivo na sua exposição e temia que fosse "tarde demais" para Jango, diante da crise, retomar controle do governo.
E depois de uma breve pausa, prosseguiu: “O drama que estou vivendo é grave e acabrunhante e prevejo um panorama negro para a nação brasileira. Entrei num terrível labirinto, do qual preciso e desejo sair, para a tranquilidade do país. Mas tenho que resguardar a dignidade do meu cargo. E a minha honra pessoal. O Ministro da Marinha, Almirante Suzano, quer que eu anistie os marinheiros rebelados, enquanto o nosso amigo Abelardo Jurema, insiste em que eu aceite a homenagem dos sargentos! Dispõe-se mesmo a me acompanhar e fazer um discurso. A tese dele é a de que a direita reagirá imediatamente à “provocação”, o que nos dará chance de eliminar de vez todos esses focos radicais, acabando com aquilo que ele, o Jurema, chama de “bolsões reacionários” que tentam desestabilizar o governo! Pergunto: que devo fazer? Olhou para Tancredo e depois para mim (Pinheiro Neto). Esquivei-me, lembra Pinheiro: "Dr. Tancredo, o senhor tem a palavra. Afinal foi para ouvir a sua opinião que o Presidente veio até aqui. Quanto a mim o Presidente já sabe o que penso de tudo isso, e o que penso é o que Presidente pensa.”
E aí Tancredo depois de pigarrear, falou: "Meu caro Jango, somos velhos amigos. Já lá se vão mais de dez anos de convivência que teve inicio quando do suicídio do Presidente Vargas em 1954. Nossa amizade sempre foi pautada pelo respeito e amizade mútua. Nunca escondi que faço restrições a muitas iniciativas de seu Governo, e que mantenho contatos, que procuro conservar e até aprofundar com importantes setores do empresariado e militares. Com a indisciplina militar de agora entramos no tal labirinto a que você se refere. Como sair dele?
Talvez agora seja tarde demais. Tenho o maior respeito pelo ministro Suzano (ministro da Marinha), mas querer dar anistia aos marinheiros amotinados, quando 99,9% da Marinha deseja vê-los punidos é gesto de extrema insensatez. Mais: é verdadeira loucura. Quanto ao Abelardo Jurema ( ministro da Justiça), trata-se de um velho companheiro de vida pública, somos amigos de anos, pertencemos ao mesmo partido, o velho PSD. Aprecio seu estilo boêmio. Seu jeitão cordial, mas, confesso, jamais poderia crer que ele Jurema, sempre tão arguto, de inteligência tão viva, pudesse ter um ataque de ingenuidade como está tendo neste momento. Além de ingênuo, ele está desinformado. Provocar “bolsões radicais reacionários” a esta altura dos acontecimentos, para depois enquadrá-los? Onde é que o Jurema está com a cabeça?”
As opções
Após uma breve pausa, Tancredo prosseguiu: “Tenho dito aqui ao nosso João Pinheiro Netto, ao Balbino e a outros companheiros que já foi um milagre o seu governo ter sobrevivido ao Comício da Central, no dia 13 (de março) passado. Outro milagre será impossível. A disciplina militar fundada em rígidos princípios de hierarquia e comando, é dogma sagrado em qualquer sistema político do mundo inteiro. Quando Trostsky - e vale lembrar aqui o episódio – foi encarregado por Lênin de organizar o Exército Vermelho, logo após a revolução bolchevista de outubro de 1917, sua primeira providência foi apelar aos oficiais czaristas que se mantivessem em seus postos de comando. Veja você que comunistas russos, recém-chegados ao poder, queriam a qualquer custo evitar o caos que provocam a falta de comando e perda de controle hierárquico na área militar. Perdoe-me a digressão, é apenas um exemplo que lhe quero dar.” Jango escutou calado. Em seguida indagou: “Tancredo, se eu punir os marinheiros, e não comparecer a tal reunião do Automóvel Clube, será que procedendo assim, conseguirei restabelecer a ordem e assegurar a estabilidade em meu governo?”

João Pinheiro Neto, que participou do encontro, concordou com a análise feita por Tancredo a Jango.
Tancredo pensou um pouco e respondeu: “Jango, sinceramente, não sei o que responder. As feridas abertas em segmento tão sensível, como é o militar, não cicatrizam facilmente e nem em tão pouco tempo. Almirantes, generais e coronéis com os quais venho mantendo contato, depois das arruaças e atos de rebeldia por parte de sargentos, cabos e marinheiros começam a reavaliar suas posições. Entenda bem, Jango, para eles é questão vital, envolve problemas pessoais, mas implica também a própria sobrevivência das Forças Armadas como instituição, fundamental para a defesa do país, interna e externamente.”
Avaliando
Foi quando Jango virou-se e perguntou: “E tu Pinheiro, que estás aí quieto, sem dizer nada, logo tu que gostas tanto de falar Não tens nada a dizer agora”. E ele respondeu: “O dr. Tancredo falou por mim. Concordo inteiramente com ele. É evidente que o senhor encontra-se diante de um impasse, um impasse que lhe criaram, não foi obra sua. Desconfio muito desse tal cabo Anselmo, que surgiu ninguém sabe de onde, do qual antes nunca se ouvira falar e que agora age como líder de toda corporação. Quanto ao Almirante Aragão (Comandante dos Fuzileiros Navais), que se mostra solidário com a indisciplina militar, me parece ingênuo, primário. O senhor sabe da reação negativa na Marinha, quando de sua nomeação. Jango atalhou: “O Aragão me foi indicado pelo Brizola!”
Os dilemas
Tancredo pensou, e voltou a falar: “Meu caro Jango, para concluir, estou vendo que você está exausto e já passa da meia-noite. Se você não comparecer à festa do Automóvel Clube e, ao contrário, punir os sargentos, cabos e marinheiros, sinceramente não sei o que irá acontecer. Mas também se você não punir ninguém e resolver anistiar os insubordinados e, além disso, comparecer à reunião dos sargentos em sua homenagem, aí, bem, tenho uma resposta pronta. Que dia é hoje, vinte e cinco de março? Faça o jogo dos insubordinados e garanto que seu governo talvez não chegue ao fim do mês...
Jango, conta Pinheiro Neto, ouvia em silêncio. E dava a impressão de já ter uma decisão. Pouco depois despediu-se.
“O que ele vai fazer?”
E após as despedidas, Pinheiro ( que incluiu todo esse diálogo no seu livro de memórias) conta que perguntou a Tancredo: “O que o sr. acha que ele vai fazer?” E Tancredo, preocupado, respondeu: “Sinceramente não sei”, mantendo o semblante carregado. Na noite seguinte, acontecia a reunião dos sargentos no Automóvel Clube com a presença de Jango e seu Ministro da Justiça. E logo depois viria a anistia para os marinheiros, cabos e soldados. E depois o 31 de março. Pinheiro Neto foi Ministro do Trabalho, da Previdência Social e Presidente da Supra (Superintendência da Reforma Agrária).
Por Carlos Fehlberg


Desfecho da crise retarda por dez anos a intervenção militar
Tendo vivido as duas crises político-militares, a de 1954, como ministro da Justiça, e a enfrentada por Jango em 1964, como líder na Câmara, Tancredo Neves vê semelhanças entre episódios. O de 1954 ganhou dimensões diante do atentado na rua Toneleros que atingiu Carlos Lacerda e matou o major Vaz, da Aeronáutica.

Tancredo Neves foi ministro da Justiça no segundo governo de Getúlio Vargas. Ficaria no cargo até sua morte, em agosto de 54.
O grupo político-militar que derrubou Jango em 1964 é identificado por Tancredo Neves como o mesmo que atuou na crise de 1954 e que levou Vargas ao suicídio, inclusive com a participação de Lacerda. Para ele, que foi ministro da Justiça de Getúlio, se não fosse o suicídio, 1954 já teria sido 64. E chama atenção para o fato de que as lideranças de oposição eram as mesmas, entre elas Carlos Lacerda e com os mesmos objetivos: "1964 foi uma revolução de direita, uma revolução conservadora, uma revolução tipicamente pró-americano, feita inclusive com a participação deles, americanos, que já tinham participado em 54. Para mim este é o aspecto mais importante do suicídio de Vargas."
Para Tancredo, Jânio Quadros, em 1961, foi na verdade um cripto-64 com ampla cobertura de todos os elementos que fizeram 1964. E lembra que, quando de sua renúncia, se não fosse o movimento de Leonel Brizola no Sul, eles já teriam nessa oportunidade implantado o 64. Foi a resistência pela legalidade democrática, comandada pelo governador gaúcho Leonel Brizola “que conseguiu empolgar a nação e criar um clima de opinião pública e mobilização”.
As conclusões de Tancredo estão numa entrevista a Valentina Lima e Plínio Ramos, que virou livro. Com a experiência de quem foi ministro da Justiça de Vargas em 1954, Primeiro-Ministro de Jango em 1961 e líder em 64, quando discutiu asperamente com o presidente do Senado, Moura Andrade, que anunciou a vacância do cargo de Presidente, Tancredo faz uma leitura dos movimentos políticos das décadas de 50 e 60, identificando neles traços comuns.
Uma dupla batalha

Missa de 7º dia do Major Rubens Vaz. Rio de Janeiro (DF), em 12 de agosto de 1954, começou a engrossar a crise político-militar
Em 1984, depois de ter acompanhado todas as oscilações do regime democrático durante décadas, ele comandou a abertura política, esgotado que estava o período militar. Acabou eleito pelo Colégio Eleitoral em 1985 e, teria assumido a Presidência não fosse enfermidade de última hora. A ação do experiente líder mineiro, num difícil jogo político, no entanto, consolidou a abertura em 85/86. Ele sempre identificou a eleição para Presidente, via Colégio Eleitoral em 1985, como o seu momento político mais importante. A redemocratização do país, seu reordenamento jurídico e a esperança que despertava em todos os segmentos sociais, aumentavam sua responsabilidade, mas constituíam um desafio histórico. E apesar das dissimulações e da sua tentativa de chegar à posse, não resistiu. Na véspera acabou operado. A partir daí, e por 38 dias, a opinião pública emocionada acompanhou o drama do presidente eleito que faleceu em 21 de abril de 1985.
Revelações de 54
Seis dias antes do 24 de agosto de 1954, o major Fittipaldi, ajudante de ordens do presidente Getúlio Vargas, encontrou sobre a mesa de trabalho do gabinete presidencial, no Palácio do Catete, um pequeno bilhete escrito de próprio punho pelo presidente: “À sanha dos meus inimigos deixo o legado de minha morte...”. Naquele dia, ampliando as tensões de uma crise político-militar (Lutero Vargas havia sido chamado a depor no inquérito do Galeão no caso do assassinato do major Vaz e que ganhara dimensão política), um ajudante de ordens preocupado procurou Alzira Vargas e confiou-lhe o achado. Conta ela que procurou o presidente, seu pai, e mostrou-lhe o bilhete. Getúlio disse-lhe apenas: "Não é nada disso que estás pensando."

Aeroporto do Galeão durante o inquérito policial militar em 1954
Este texto só viria a ser reencontrado após a morte. O bilhete era, na realidade, um rascunho da carta-testamento que o presidente Vargas teria redigido em cinco folhas de um bloco oficial com o timbre da Presidência da República. Foi esse texto, de nítido caráter pessoal, que teria servido de base, segundo uma das versões, para a carta-testamento que Vargas redigiu. Ela passaria a ser daí por diante, a plataforma do Partido Trabalhista Brasileiro. Uma das cópias teria sido assinada pouco antes da última reunião do Ministério, na presença, entre outros, do então ministro Tancredo Neves e do governador Amaral Peixoto, mas que desconheciam seu conteúdo. O presidente, aos 73 anos de idade, confessava-se velho, cansado, acuado não só pela ação de seus adversários, mas atingido também pela fraqueza dos amigos.
José Augusto Ribeiro traz mais informações a respeito desse momento no "Era de Vargas". E diz que pela cronologia daquilo que se tornou a história oficial desse período, o Presidente suicidou-se logo depois de receber a notícia da convocação do seu irmão Benjamin Vargas pelo IPM do Galeão que apurava a morte do major e ser informado sobre a reunião dos generais, na qual o ministro Zenóbio da Costa anunciou que uma licença presidencial (se ocorresse) seria pro forma e que Vargas não voltaria ao governo. O Palácio do Catete na realidade estava recebendo muitos boatos, mas que ajudavam a criar um clima de insegurança e incertezas.
O momento fatal
Tancredo Neves estava no andar de baixo do Catete com os generais Âncora e Caiado, quando ouviu um estampido e logo foi informado do suicídio. Subiram todos familiares imediatamente e Vargas depois de acomodado, ainda vivo, lançou um olhar para a filha Alzira, e nela se fixou até morrer. Na cabeceira da cama, um envelope com um documento, a Carta-Testamento.
Bastidores
Controvérsias logo envolveram a Carta-testamento, a ponto da autoria ser atribuída até mesmo ao jornalista José Soares Maciel Filho, redator de parte dos discursos de Vargas. Lutero Vargas diz que ele teria confirmado que datilografara o texto manuscrito que lhe fora entregue pelo Presidente. No arquivo de Vargas no CPDOC, encontram-se duas cartas: uma cópia datilografada, que corresponde ao texto transmitido do Catete, por telefone, à Rádio Nacional horas após o suicídio, e uma cópia manuscrita, de um texto mais conciso, que também menciona os poderosos interesses que se opunham aos interesses nacionais e exploravam o povo.
O suicídio e a divulgação da carta geraram alterações nos rumos políticos do país. As reações foram imediatas, mudando o cenário acusatório dos dias anteriores. Manifestações ocorreram em toda parte. O cortejo que acompanhou o corpo do presidente ao aeroporto, rumo a São Borja reuniu uma multidão nunca vista na história do Rio de Janeiro, até então.
A Carta-Testamento

Carta-testamento de Vargas.
"Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.
Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco.

Tancredo Neves (à direita) no enterro de Vargas em São Borja.
Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".
Por Carlos Fehlberg


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