
Maria Thereza Fontella Goulart: Memórias do exílio
Ela guarda mais lembranças do que a fama de primeira-dama mais bonita do Brasil. Maria Thereza Goulart relembra a vida fora do país, mas também os dias de glamour antes do Golpe de 1964
por Flávia Ribeiro
Foram alguns meses de tentativas por intermédio, primeiro, da filha, Denize, 50 anos; depois, do filho, João Vicente, 51 anos, até que fosse marcada a entrevista com Maria Thereza Fontella Goulart, 70 anos, viúva do ex-presidente João Goulart. Segundo o filho, Maria Thereza não gosta de dar entrevistas. Mas foi com extrema simpatia que a primeira-dama mais bonita que o Brasil já teve recebeu a equipe de História, no apartamento de Denize, na zona sul do Rio de Janeiro. Ao lado dos dois herdeiros e das netas Isabela e Bárbara, ela relembrou seu passado e deu vivas ao presente. “Hoje vivo para os meus oito netos”, diz.
Cercada de porta-retratos, a matriarca chamou a atenção para a foto do ex-presidente segurando o neto mais velho, Christopher, no colo, apenas dois meses antes de morrer, em 6 de dezembro de 1976. “Ele mostrava esse retrato para todo mundo, estava muito feliz por ser avô”, contou ela, sentada ao lado da famosa fotografia em que está junto do marido no comício da Central do Brasil, no Rio, em 13 de março de 1964, poucos dias antes do golpe que depôs Jango e instaurou a ditadura militar no Brasil.
Nessa entrevista, Maria Thereza rememora o início do namoro com Jango, ainda na adolescência, quando tinha apenas 14 anos. Revela que ele morria de ciúme dos namorados da filha, fala da solidão do marido no exílio e comenta as vezes que ela própria foi presa no exterior e no Brasil. Durante o encontro, ela não quis falar a respeito das circunstâncias da morte do ex-presidente, porque o assunto a deprime. Só admitiu a dúvida sobre a causa mortis do marido em outra ocasião, por telefone. Foi nesta segunda longa conversa com a repórter que ela fez as confissões que estão na reportagem de capa.
História – O que a senhora mais lembra do comício da Central do Brasil?
Maria Thereza – Participei de outros comícios, na campanha de 1962, mas aquele foi o comício das reformas de base, um marco daquele momento da política nacional. Até me assustou de tão grande, tão intenso. Eu sabia que era um momento difícil, havia avisos de atentados. O médico dele tinha proibido aquele comício, Jango tinha problemas no coração. Os militares já haviam tentado negociar o fechamento do Congresso e a prisão de líderes sindicais e políticos em troca de se manter no poder. Mas meu marido era um democrata, nada o faria se afastar de seus princípios. “Presidência é destino”, ele dizia. Preferiu cair, mas cair de pé. Esse dia, o do comício, eu vou levar comigo para sempre. Foi ali que aprofundei minha admiração pelo caráter do meu marido, que entendi que o Brasil o merecia. Foi ali que ele se tornou um mártir da democracia no nosso país.
Como foi aquele 31 de março de 1964?
Foi um dia difícil. Não somente para nós, mas para todo o povo brasileiro. Meus filhos não sentiram de perto, eram pequenos. Somente mais tarde entenderam a situação difícil, principalmente para seu pai. Cresceram no exílio, em outras terras, longe dos amigos e de sua pátria.
De que forma o exílio os abalou?
Para Jango, que dedicou a vida a uma causa, o desterro foi a solidão. Ele teve que conviver com isso até a morte. Até hoje não consigo passar perto daquela ponte em Uruguaiana [na fronteira do Brasil com a Argentina]. Lembrar-me de meu marido passando ali dentro do caixão me traz à memória velhas imagens difíceis de recordar. Para mim o exílio foi mais ameno. Eu tinha que me dedicar aos meninos. Não senti tanto. Meus parentes iam me visitar, as irmãs de Jango também. Amigos, só os políticos exilados lá, Darcy Ribeiro, Waldyr Pires... Formamos uma tribo de exilados. E fomos bem acolhidos pelo povo uruguaio, que tinha orgulho de ter dentro de seu país o presidente do Brasil. O Uruguai se tornou nossa segunda pátria.
Como era a vida no exílio?
Jango dizia uma frase que a gente lembra sempre: “O exílio é uma invenção do demônio”. No começo, a tranqüilidade democrática do Uruguai nos protegeu e nos sentimos em paz. Mas os golpes sucederam-se em outros países latino-americanos, inclusive no Uruguai. A perseguição tornou-se então implacável.
Por que a senhora foi presa?
Fui presa em tudo quanto é lugar, Uruguai, Argentina, Brasil... Na primeira vez fiquei detida três dias no Uruguai. Lá existia a Lei da Veda, que proibia durante 15 dias de cada mês o comércio e o consumo de carne, para sobrar mais para a exportação. Meu marido tinha um frigorífico em Maldonado. Uma vez fui da fazenda para Montevidéu com 6 quilos de carne no carro, colocadas por um empregado. Passava de meia-noite e policiais me mandaram parar: “O que tem aí?”, perguntaram, armados. “Nada”, eu disse. Mas viram a carne. Fiquei num posto da polícia em La Floresta. Já era época da ditadura. Da outra vez, no Uruguai, fui levar uma amiga da minha filha, Denize, em casa, e me pararam. Tinha esquecido os documentos em casa, aí me levaram para a delegacia. Foi rápido, um dia só. Na Argentina, um amigo foi preso e estava dirigindo um carro no meu nome. Fui chamada e passei algumas horas detida. No Brasil foi pior. Foi por ser mulher dele. Em 1970, época mais complicada da ditadura, meu pai estava muito doente. Vim visitá-lo. Viram meu nome no passaporte e me prenderam. Passei por muitos interrogatórios, “tira a roupa, bota a roupa, tira a roupa, bota a roupa”. Fiquei três dias incomunicável.
Mas a senhora foi torturada?
Não tocaram em mim. Tortura, só mental. Mas foi muito cruel. Muito.
Vocês achavam que voltariam logo para o Brasil?
Certa vez Jango me disse: “Teca (era assim que ele me chamava desde que me conheceu), às vezes acho que tu vais voltar para o Brasil viúva e avó”. Foi o que aconteceu!
Como era o Jango marido e pai?
Ele era supercarinhoso com os filhos. Um amigo na época até comentou: “Já reparou como toda vez que o Jango está com os meninos abre sempre um sorriso enorme?” Ele era grudado com o João Vicente. E com Denize, depois que ela ficou mais velha, ele era muito ciumento. Não conheceu um namorado dela, não admitia! Ele não era nada romântico. Até mandava flores, dava presentes, me elogiava... Mas tinha aquela coisa do gaúcho de determinar como as coisas deveriam ser. Era muito conservador.
Quando a senhora voltou para o Brasil?
Dia 6 de dezembro de 1976, para enterrar meu marido. De vez, só em 1980.
É verdade que a senhora teve que lutar para receber pensão?
Sim, foram 12 longos anos. Entrei na Justiça junto com dona Sarah [Kubitschek] e com Yolanda [Costa e Silva]. Há seis anos consegui começar a receber.
Durante o exílio, seus bens foram confiscados? Seus objetos foram recuperados?
Os bens patrimoniais do meu marido foram confiscados por meses, até terminarem os inquéritos instaurados pelos militares. Tiveram que lhe devolver tudo. Jango nunca teve empresas ou ações em seu nome ou no de terceiros. Como ele disse numa entrevista, “podem investigar à vontade, pois meu patrimônio é límpido como o céu do Rio Grande”. Sua declaração de renda sempre foi na pessoa física. O mais hilário nos processos de malversação de fundos contra ele, que ainda respondia quando morreu, é uma parte sobre mandar pintar nosso apartamento com em torno de 30 litros de tintas Novocap. Isso é que é corrupção, né? Não tinham nada para falar dele.Agora, os meus pertences sumiram todos: carro, jóias, roupas... Viajei com meus filhos para o exílio com pouco mais que a roupa do corpo. Perdi tudo, nunca mais tive notícia de nada.
A senhora gosta de ser lembrada como a primeira-dama mais bonita do Brasil?
Quando a gente é jovem, tudo é bonito. O governo era formado por homens muito jovens, era cheio de glamour. Jango era um homem lindíssimo! Waldyr Pires, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, todos eram bonitos. Era um governo de gente jovem.
Mas e a senhora, dona Maria Thereza?
Olha, eu era muito jovem... É claro que me sentia lisonjeada com os elogios. Imitavam meu penteado, aquele coque, então... Como eu já disse antes, o Brasil vivia um momento de mudanças na moda, cinema, música... Eu procurava estar à altura de meu marido, que tentava mudar o país.
Jango completaria 89 anos dia 1º de março. Como a senhora imagina que ele avaliaria o Brasil?
Com tristeza, sem dúvida. O Brasil que ele sonhava era justo e solidário. Talvez seja possível ainda o Brasil chegar lá.
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Lacerda passou em revista com Jango no Uruguai o cenário político nacional.


Jango toma um chimarrão em sua fazenda no Uruguai.
Durante o exílio surge o AI-5...

A radicalização da ditadura: Costa e Silva realizando o pronunciamento do AI-5.
Com o prosseguimento dos militares no poder, observamos que as situações de protesto e conflito contra o novo governo tomavam cada vez mais relevância. Por um lado, políticos de grande quilate como Juscelino, Jango e Carlos Lacerda organizavam a “Frente Ampla”, movimento que defendia o retorno à democracia liberal. Por outro, estudantes e outros grupos se mobilizavam em enormes passeatas que reivindicavam o fim das imposições militares.
No dia 28 de junho de 1968, milhares de trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais, professores e religiosos se reuniram na chamada Passeata dos Cem Mil. Tendo o recente assassinato do estudante Édson Luís como pano de fundo, os membros desta manifestação fizeram um grande ato contra a ditadura militar. Logo em seguida, greves em São Paulo e Minas Gerais também mostravam os problemas e a indignação dos trabalhadores.
Mediante todas essas ações de inconformidade, os representantes da cúpula militar acreditavam que o governo deveria articular medidas que viessem a frear esses e outros episódios de natureza subversiva. Em julho de 1968, os integrantes do Conselho de Segurança Nacional concluíram que o Brasil se apresentava em avançado estágio de “guerra revolucionária” apoiada por membros de oposição diretamente influenciados pelo ideário comunista.
No dia 2 de setembro, os ânimos se inflamaram ainda mais quando o deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, realizou um discurso no Congresso fazendo duras críticas ao militarismo. Alguns meses depois, os próprios deputados federais (incluindo alguns do próprio ARENA) negaram o pedido em que o Poder Executivo solicitava processo contra o deputado Márcio Moreira. Aparentemente, os militares não haviam alcançado a hegemonia política e ideológica esperada.
Dessa forma, no dia 13 de dezembro de 1968, ocorreu a publicação do Ato Institucional n° 5. Visto como uma das maiores arbitrariedades da época, o novo decreto permitia ao presidente estabelecer o recesso indeterminado do Congresso Nacional e de qualquer outro órgão legislativo em esfera estadual e municipal, cassar mandatos e suspender os direitos políticos de qualquer cidadão por dez anos. Além disso, poderia ser realizado o confisco dos bens daqueles que fossem incriminados por corrupção.
Não bastando isso, o AI-5 suspendia as garantias individuais ao permitir que o habeas corpus perdesse a sua aplicação legal. A partir de então, autoridades militares poderiam prender e coagir os cidadãos de forma arbitrária e violenta. Logo após a publicação do AI-5, vários jornalistas e políticos foram lançados na cadeia. Tempos mais tarde, o presidente Costa e Silva se dirigiu à nação dizendo que tal ato fora necessário para que a corrupção e a subversão fossem combatidas, e a democracia resguardada.
Por fim, observamos que a ditadura mostrava sua mais clara faceta ao minar o poder de ação dos indivíduos por meio da força. Acuados pela repressão, alguns membros da esquerda buscaram o exílio ou as vias oficiais disponíveis para se manter contra o regime. Ainda haveria uma minoria que incorporou as experiências de guerrilha urbana e rural em uma tentativa radical de luta contra os militares. No fim das contas, o Brasil inaugurava sombriamente os seus “anos de chumbo”.


